Arquivo FolhaTendênciaApesar das taxas ainda altas, o juro real no crediário está recuando Uma pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) mostra que as taxas médias de juros praticadas no comércio ficaram em 9,08% ao mês em setembro. A Anefac realizou a pesquisa em sete estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Brasília, Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul), com base em 12 mil anúncios publicados em jornais. Dos anúncios analisados, 72% se referem a pequenas e médias empresas.
Os juros continuam extremamente elevados, considerando que a inflação esperada para este ano é de 5% (IPC-Fipe). As taxas médias mensais praticadas pelo comércio estão estáveis, entre 9,07% e 9,09%, desde maio último. As taxas maiores são praticadas pelas empresas de menor porte. Nas grandes redes, o juro mensal médio ficou em 7,41% em setembro, contra 8,72% das redes médias e 11,27% das pequenas redes.
Por setor de atuação, o segmento de veículos mantém as taxas mais baixas, com média de 5,25% ao mês. As empresas de turismo cobravam em média 5,33% ao mês. Entre os que praticam as maiores taxas estão os setores de decoração (11,42%), artigos de ginástica (11,26%) e celulares (10,57%). Uma verdadeira aberração foi encontrada em anúncio de artigo de informática no Paraná, com juro de 66,67% ao mês, destaca a pesquisa.
A pesquisa revela, no entanto, que o juro real do crediário está recuando nos últimos dois anos. Em agosto de 95, a taxa média praticada pelo comércio era de 14,85%, com juro real de 10,64% ao mês sobre o custo do dinheiro, medido pelo CDI (Certificado de Depósito Interbancário), que ficou em 3,81% naquele mês.
Em setembro último, o juro médio de 9,08% embute uma taxa real de 7,38% acima da taxa de 1,58% do CDI, indica a pesquisa da Anefac. Em taxas reais anualizadas, em agosto de 95 os níveis eram de 236%, quase o dobro dos 135% de setembro último.
Os juros reais ‘‘gordos’’ substituíram a ciranda financeira da inflação para cobrir ineficiências das empresas. Os juros altos tornam a venda a prazo muito lucrativa, desviando o comércio de sua atividade fim, alerta Miguel José Ribeiro de Oliveira, vice-presidente da Anefac e coordenador da pesquisa de juros.
Naturalmente, a estabilidade continuada da economia e a consequente concorrência obrigam as empresas a reduzirem os juros no longo prazo. A maior competição também entre bancos e financeiras tende a derrubar os juros reais cobrados do consumidor.
A taxa média de financiamentos em até seis vezes foi de 9,82% ao mês em setembro. Nos financiamentos em até 12 vezes os juros mensais médios foram de 8,47%, próximo aos 8,46% das vendas em até 18 vezes. Nas vendas acima de 18 vezes as taxas médias ficaram em 9,58%.
A Anefac alerta também para a questão da propaganda enganosa, que continua acontecendo frequentemente nos anúncios. Entre as falhas encontradas pela Anefac, 88% dos anúncios não informam com destaque a taxa de juro praticada na venda a prazo; 86% não informam de forma clara ou legível; 55% publicam taxa de juro inferior à realmente praticada; e todos os anúncios não indicavam a taxa anual equivalente dos seus financiamentos. Segundo a Anefac, o Código de Defesa do Consumidor determina que, nas vendas a prazo, seja indicada a taxa de juro mensal e a anual.
Na questão dos abusos, as agências de turismo e empresas de venda de artigos de informática são campeãs, segundo a pesquisa da Anefac. Nos dois segmentos, 97% das empresas praticaram alguma irregularidade na informação dos juros cobrados do consumidor. Nas agências de veículos houve problema em 95% da amostra, mesmo nível encontrado em lojas de aparelhos celulares. No segmento de utilidades domésticas, os abusos foram encontrados em 94% dos anúncios.
Os abusos ficam mais fáceis também porque o consumidor não se preocupa com as taxas. Uma pesquisa da Anefac junto a 712 consumidores mostra que 96% fazem financiamento sem conhecer os juros cobrados, preocupando-se apenas com sua capacidade de pagamento da prestação.
Segundo a pesquisa da Anefac, os juros médios praticados pelas empresas de cartão de crédito ficaram em 10,75% ao mês em setembro, acima dos 9,08% ao mês da média praticada pelo comércio. No segmento de cheque especial, a taxa ficou em 9,95% ao mês. Nas linhas mais baratas, de acordo com a Anefac, estão o crédito direto ao consumidor tomado em bancos, com juros médios de 6,45% ao mês, e o empréstimo pessoal, também tomado em bancos, com taxa de 6,75% ao mês.

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