Comdex aponta os caminhos do futuro
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 21 de novembro de 1996
Tadeu Felismino 
Será que os PC NetWork, microcomputadores burros, bem mais baratos, preparados apenas para operar Internet, constituem uma tendência consistente?
Será que há uma war of eyeballs, uma guerra pela atenção das pessoas, entre o PC e a TV?
Afinal, como ganhar (mais) dinheiro com a Internet?
Estas são algumas perguntas polêmicas que agitam esta edição da Comdex Fall, maior evento mundial de informática.
Duas semanas após a surpreendente disputa entre Tyson e Holyfield, o mundo novamente se volta para Las Vegas, desta vez para ver os peso-pesados da indústria de informática, segmento da economia mundial que mais cresce atualmente, movimentando mais de US$ 2 trilhões ano ano.
E nenhum deles faltou: além da Intel, Microsoft e Netscape, que foram destaque nos três primeiros dias da feira, todos os gigantes estão aqui, com forta total: IBM, Motorola, Lotus, Sharp, Sony, Apple, HP etc.
Internet e Intranet As divergências alimentaram uma brincadeira, que percorre os 2.100 estantes e as mais de 70 conferências programadas: para a pergunta-tema desta Comdex - where do you want to go (onde você que ir?), a resposta tem sido outra pergunta: but where are we? (mas onde nós estamos?).
Como sempre, há um certo exagero na brincadeira, porque os consensos estão superando com folga as divergências.
O primeiro grande consenso diz respeito a uma tendência avassaladora e irreversível para a Internet e as Intranet, demonstrada em diversos cases de grandes empresas.
A Ford, por exemplo, já conectou 60 mil de seus 300 mil funcionários numa Intranet, rede interna que utiliza os mesmos recursos da Internet, melhorando a comunicação e eficiência e reduzindo custos; em um ano ela atingirá metade do seu pessoal, para depois conectar suas revendas, fornecedores, etc.
Já o USA Today, maior jornal americano, está faturando nas duas frentes: através de Intranet conectou todos os seus repórteres com a redação, e atraves da Internet está entregando jornal para seus leitores por um terço do preço de capa do impresso.
Micro versus TV Outro consenso desta Comdex refere-se às perspectivas do mercado de PCs: enquanto as corporações maiores investem em Intranet, os pequenos negócios e os lares aparecem como o grande mercado a ser ocupado.
Mas há dificuldades: num painel sobre o tema, foram apresentadas pesquisas mostrando que há menos home computers do que se imaginava - 35% dos lares americanos; e a tendência é de um crescimento não tão acelerado - 45% em 2000 e 50% em 2010.
Aí começam as divergências: Andy Grove, da Intel, empresa que inventou o microprocessador e que comemorou os 25 anos dessa façanha com a conferência de abertura da Comdex 96, acredita que a indústria de PCs tem pela frente uma guerra - war of eyeballs - com a TV.
Para ele, as pessoas ainda preferem gastar hora na frente da TV, em vez de brincar no micro, porque o PC ainda não conseguiu ser um divertimento melhor que a TV. Tanto é que a venda de PCs novos tem sido pouco superior à de novos aparelhos de TV. Por isso, ele acredita que o PC deve preparar-se para fazer o que a TV faz, com qualidade de cinema, e deu uma demonstração, em sua conferência, apresentando trechos do filme Twister (Tornado) com as diferentes tecnologias de processamento desenvolvidas pela Intel, que oferecem definição de som e imagem cada vez melhores.
Muitos consideram essa guerra inglória, principalmente nos Estados Unidos, onde as pessoas amam a televisão. Mas concordam com Grove em melhorar o desempenho dos PCs na Internet, na incorporação de som e - especialmente - de imagem na comunicação, outra vedete desta Comdex. Entre muitos produtos dessa linha lançados aqui em Las Vegas, uma placa de som e imagem para Internet, com câmera embutida, de boa qualidade, pode ser comprada no estande de Taiwan, vizinho do brasileiro, por US$ 490.
Para Bill Gates, que fez a conferência especial de terça-feira, o caminho para a expansão do mercado de PCs passa pela remoção de um obstáculo que inferniza a vida de boa parte dos 200 milhões de usuários hoje no mundo: a eliminação do teclado e sua substituição por comandos de voz.
Em alguns clipes com a participação de Danny de Vito, Michael Jordan e do próprio Gates, os 7 mil espectadores que lotaram o Alladim Theatre riram a bandeiras despregadas com as situações vividas por usuários domésticos, a confusão que o dialeto da informática gera nas pessoas comuns e puderam visualisar um mundo bem melhor, quando as pessoas puderem conversar com a máquina, em vez de apertar botões complicados.
Para resumir: dos bilhões de dólares que a Microsoft investe em pesquisa e desenvolvimento, 60%, segundo Bill Gates, estão indo para sistemas de comando e reconhecimento de voz. Até porque, depois de perder o bonde da Internet para a Netscape, a Microsoft está comendo poeira da IBM, na corrida pelo comando de voz.
Dez gigahertz em 2011 Encontrar alternativas para que o mercado de PCs continue crescendo será fundamental para manter o espantoso desenvolvimento tecnológico que se verifica na área. Segundo Andy Grove, que inaugurou nesta Comdex o Museu do Microprocessador, outra homenagem às bodas de prata desse fantástico invento, o número de transistors no microprocessador dobra a cada 18 meses e em 2011 os chips alcançarão a espantosa capacidade de 10 gigahertz.
Entre as alternativas que ele vê para essa expansão de mercado, uma delas, o PC Network, versão simplificada do microcomputador, voltada exclusivamente para Internet, parece irritar profundamente Biil Gates, que perderia mercado com essa solução, por dispensar os seus softwares. Em sua conferência, Gates arrancou gargalhadas do público, referindo-se a essa máquinas, que estão chegando no mercado a US$ 500, como um retorno às velhas black box (caixas pretas) da IBM.
Colaborou Renato Victor dos Santos, da Comsystem, Londrina.


