São Paulo - O consumidor deve se preparar para encontrar combustíveis a preços mais altos a partir de hoje nos postos. No caso da gasolina, o motivo é que a sua composição muda - ela terá, em vez de 25%, 20% de álcool. Com isso, fica mais pura, e conseqüentemente, mais cara. A alta esperada é de 4%, ou R$ 0,09. Os postos já avisaram que a alta será toda repassada. Já para quem usa álcool com o intuito de economizar, a notícia é ainda pior. Como os reajustes nas usinas não param, um novo aumento de R$ 0,20 vem por aí. Com isso, o álcool pode passar dos R$ 2 por litro.
  A mudança na composição da gasolina ocorreu para que mais álcool fosse colocado no mercado, baixando o preço do produto. A medida foi tomada pelo governo após os usineiros não respeitarem o acordo feito entre os dois, no qual o litro do álcool seria vendido por até R$ 1,05.
  O governo manterá até o fim deste ano a redução de 25% para 20% na mistura do álcool anidro à gasolina e, dificilmente, deverá liberar entre R$ 500 milhões e R$ 1 bilhão pedidos pelos usineiros para o financiamento dos estoques do combustível. As duas medidas são encaradas como uma punição aos produtores de álcool pelo não-cumprimento do acordo de janeiro.
  Para evitar novas altas da gasolina, o governo mostrou que pode ainda reduzir a Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide) incidente sobre o combustível. Como o dinheiro para o financiamento da estocagem de álcool vem de recursos da Cide, os usineiros seriam penalizados duplamente: deixariam de vender mais álcool e pagariam a conta pela arrecadação menor.
  ‘‘Para dar a garantia (de abastecimento de álcool) ao consumidor brasileiro, e até por uma questão de postura, o governo quer examinar com mais profundidade o assunto. Seguramente, a mistura vai (ficar em 20%) pelo menos até o final do ano, com a possibilidade de continuar’’, afirmou o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues.
  Em 2003, quando também houve a redução na mistura, a intervenção durou cinco meses. Com a redução de agora, seriam retirados do mercado entre 1,2 bilhão e 1,5 bilhão de litros de álcool, o suficiente para um mês de abastecimento.
  Rodrigues, que avalizou a negociação de janeiro entre governo e setor produtivo, admitiu estar chateado com o rompimento do acordo e criticou os produtores de álcool. ‘‘O não-cumprimento (do acordo), menos de dois meses depois, mostra que não houve seriedade’’, disse.
  Para o ministro, há ‘‘um claro movimento especulativo’’ em relação às ameaças de desabastecimento atreladas às altas nos preços do álcool nos postos. ‘‘Não vou fazer aqui suposição de quem é a especulação, mas alguém está especulando com isso a partir da premissa repetida pelos produtores de que a oferta está equilibrada com a demanda’’, afirmou.
  O ministro admitiu que a especulação no setor colabora ainda para que surjam notícias sobre o desabastecimento nos postos. Mas, pelos cálculos do governo, até maio, quando todas as usinas do Centro-Sul estarão produzindo, serão ofertados 2,4 bilhões de litros de álcool, soma de 1,6 bilhão de litros de estoques e de, no mínimo, 800 milhões produzidos. Não estão incluídos nessa conta os 100 milhões de litros que serão economizados com a redução da mistura do anidro à gasolina. O consumo de álcool entre março e abril deve ser de 2,2 bilhões de litros.

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