Combinação de fatores ‘esfria’ sonho da casa própria
Com base em dados da PNAD Contínua 2025, especialistas explicam por que o número de paranaenses que vivem em imóvel alugado é cada vez maior
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 01 de maio de 2026
Com base em dados da PNAD Contínua 2025, especialistas explicam por que o número de paranaenses que vivem em imóvel alugado é cada vez maior
Lúcio Flávio Moura - Especial para a FOLHA 

O fenômeno é nacional, como demonstram os resultados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) Contínua 2025 divulgados no último dia 17 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
Mas, no Paraná, a realidade é ainda mais contundente: o número de pessoas que vivem em imóveis alugados está crescendo e se consolidando como tendência pelo menos a médio prazo.
No decênio 2016-2025, o número de domicílios alugados no País cresceu 54%, enquanto o de domicílios próprios financiados teve elevação de pouco mais de 31%, patamares bem superiores aos domicílios próprios já quitados, que tiveram aumento de apenas 7,2%.
No ano passado, mais de 48 milhões de brasileiros eram inquilinos, um contingente maior que toda a população da Argentina. Entre a segunda metade da década passada e a primeira metade da década atual, o incremento foi de mais de 17 milhões de moradores, uma massa populacional semelhante à do Centro-Oeste. No mesmo período, o número de imóveis alugados no Brasil cresceu 5,4 pontos percentuais, contra uma queda de 6,6 pontos percentuais no grupo dos que viviam em imóveis próprios já quitados (para 60,2%)
No Paraná, mais de 1,1 milhão de imóveis estavam ocupados por locatários em 2025, o que representa pouco mais de uma quarta parte do total estadual (25,1% contra 23,8% do total nacional). Em 2016, a fatia dos domicílios que estavam alugados era inferior a uma quinta parte (19,5%).
A FOLHA ouviu três especialistas para analisar estes dados e eles elencaram fatores demográficos, comportamentais e macroeconômicos para explicar esta transformação gradual da matriz habitacional
Antes de abordar a questão da ascensão do aluguel sobre a casa própria, o economista do IBGE no Estado, Elias Guilherme Ricardo destaca o rápido crescimento no número de imóveis, que saltou de 3,7 milhões, em 2016, para 4,5 milhões em 2025.
Entre 2024 e 2025, o Paraná foi, proporcionalmente, o estado com maior aumento no número de domicílios (4,38%). Entre 2016 e 2025, o salto foi de mais de 19%. A velocidade do crescimento da população foi consideravelmente menor que o crescimento de domicílios no período, reduzindo a média de moradores por unidade para 2,6, com ampliação da parcela de imóveis que abriga um ou dois moradores e retração da parcela com três ou mais moradores.
A hipótese mais provável é que este movimento foi mais intenso no Paraná pelo aumento da renda e pela estabilidade no mercado de trabalho e que a escolha pela locação se deu pela flexibilidade e pela incapacidade de financiamento de um imóvel próprio, que exige um montante alto na entrada.
“As pessoas mais jovens não têm esse capital acumulado, mesmo que consigam arcar com o valor da mensalidade. Há também uma mudança de mentalidade de quem nasceu na virada do século, com menos apego à posse que as gerações anteriores. Muitas vezes, alugar um imóvel significa qualidade de vida, permitindo morar perto do trabalho e do local de estudos. Ironicamente, o aumento do número de locatários também pode ser um sinal de melhora econômica porque assinar um contrato de pelo menos um ano requer estabilidade e perspectiva de renda, o que tem sido registrado constantemente pela PNAD no Estado”, explica Elias.

A professora Carina Diane Nakatani Macedo, do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina, estuda políticas públicas relacionadas à demografia e distribuição de renda, tem uma visão diferente e acredita que o crescimento da proporção de paranaenses que pagam aluguel está relacionado ao crescimento lento da economia na década e a uma recuperação hesitante no pós-pandemia. Para ela, as condições da economia impedem que as pessoas acumulem patrimônio. “A taxa de juros elevada inibe a compra da casa própria. Para quem não tem crescimento da renda, o valor alto da entrada é um impedimento intransponível”, analisa.
“Há um distanciamento entre a evolução do poder de compra dos trabalhadores e o valor do metro quadrado no mercado imobiliário. E as pessoas vão se adaptando a esta realidade. Assumir um financiamento numa fase de juros com patamares tão altos é uma decisão muito arriscada. Houve também um período anterior com poucos recursos destinados ao financiamento imobiliário. Tudo isso fomentou o mercado de aluguéis, sem falar que os lançamentos dos imóveis menores atraem mais os investidores que visam a locação, o que aquece este mercado”, avalia Renato da Rocha Neto, sócio da Litz Estratégia e Marketing, uma empresa que atua com inteligência de mercado e gestão estratégica. Ele também menciona fatores secundários como o crescente número de profissionais e estudantes que preferem o aluguel por estarem dentro da população flutuante das cidades, aquela que sabe que vai viver na cidade só por um determinado tempo.

Uma realidade na cidade de São Paulo, onde os lançamentos imobiliários de apartamento de até 30 metros saltou de 0,5% do total em 2016 para mais de 37% em 2025, de acordo com o relatório anual do sindicato patronal da construção civil, a oferta dos chamados “estúdios” são uma tendência também para cidades de porte médio como Londrina, avalia Rocha Neto, o que certamente pode influenciar em uma participação ainda maior dos domicílios alugados no futuro.
Para Carina, esta movimentação é ruim para a economia do País porque promove a desigualdade. “O aluguel concentra renda na medida em que há uma transferência contínua de recursos de quem tem menos para quem tem mais. Com cada vez mais domicílios alugados, em larga escala, esta novidade colabora para aumentar a desigualdade”, avalia a professora da UEL.


