Com mais de R$ 750 bi, fundos de pensão garantem investimentos
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quinta-feira, 02 de março de 2017
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 

Num País que não faz superavit primário há três anos, os investimentos dependem cada dia mais do setor privado. E o Brasil, além dos problemas fiscais que se agravaram nos últimos tempos, enfrenta uma dificuldade histórica: a população é uma das que menos poupam no mundo.
Neste cenário difícil, a previdência complementar, sobretudo os fundos de pensão, vem ganhando papel fundamental na formação da poupança nacional e, consequentemente, nos investimentos.
Segundo a Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), em novembro do ano passado os fundos de pensão possuíam um total de mais de R$ 754 bilhões em ativos, sendo que metade deste valor estava aplicado em fundos de investimentos de todos os tipos. Dinheiro que está sendo usado na construção das mais variadas obras de infraestrutura.

Especialista em previdência, o administrador de empresas e professor da Universidade de São Paulo (USP) José Roberto Ferreira Savoia diz que as diversas formas de previdência privada, incluindo as abertas, devem somar 30% do valor do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em ativos algo em torno de R$ 1,8 trilhão. "São recursos que estão investidos no País", afirma.
O coordenador de Previdência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipeal), Rogério Nagamine, ressalta que, além de permitir investimentos, o setor de previdência complementar ajuda a financiar o governo, principalmente em época de crise. De acordo com a Abrapp, somente as entidades de previdência complementar fechadas (fundos de pensão) têm mais de R$ 129 bilhões em títulos do Tesouro. "São instituições com grande impacto macroeconômico."

Parte da solução
Luís Ricardo Martins, presidente da Abrapp, considera que os fundos de pensão são "parte da solução do problema econômico" brasileiro. "O BNDES já disse que não terá recursos públicos para aplicar na economia. Então, os fundos são parte da solução. Eles sempre foram e continuarão sendo parceiros em grandes projetos", declara.
Mas, Martins ressalta que o setor está estagnado e tem muito potencial para crescer. "O Brasil é o país que menos poupa na América latina" (ver quadro). O professor Savoia concorda: "O brasileiro poupa pouco em relação a países com o mesmo nível de renda." Esse fato impede que o País invista mais. "Precisamos investir pelo menos o mesmo tanto que a Índia e Rússia, cerca de 20% do PIB. Mas nosso nível de poupança é muito pequeno para isso. Parece que somos mais atraídos pelo consumo", declara.
De acordo com Savoia, a taxa de investimento no Brasil é de pouco mais de 18% do PIB anual, sendo que o governo contribuiu com menos de 2%.
Só no Postalis, são R$ 10 bilhões
Ex-presidente da Sercomtel, Christian Perillier Schneider hoje tem a missão de administrar mais de R$ 10 bilhões em ativos do fundo de pensão Postalis, patrocinado pelos Correios. Ele assumiu a Diretoria de Investimentos do fundo e ressalta a importância do setor para os investimentos de longo prazo do País. "Além de os bancos brasileiros estarem sem liquidez, eles precisam de retorno rápido para seus acionistas. Não faz sentido para os bancos fazerem investimento naquilo que vai dar retorno em 10 anos, mas faz sentido para os fundos de pensão".
Hoje, a maior parte do capital do Postalis está investido no Tesouro Nacional. Mas, com a baixa dos juros, será necessário mexer no portfólio de investimentos. De acordo com Schneider, ao contrário dos Estados Unidos, onde os fundos têm muita penetração no mercado de capitais, no Brasil, segue-se o modelo europeu de investimento no mercado de crédito, em produtos de renda fixa.
"O mercado de capitais está fora da realidade", diz Schneider. Segundo a Abrapp, somente 10% do dinheiro aplicado pelos fundos está em ações. "Nosso mercado de capitais é restrito a poucos investidores com custo alto, comparativamente ao resto do mundo", critica.
EXPANSÃO
O presidente da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp), Luís Ricardo Martins, diz que o setor tem muito a crescer. E que está cobrando do governo tratamento à altura de sua importância. Ele critica o fato de parte dos planos abertos de previdência, oferecidos pelos bancos, contarem com o benefício da isenção fiscal para os investidores. "É um contra-senso. Nós é que deveríamos ter esse benefício e não temos. Eles (previdência privada dos bancos) são um produto financeiro e não previdenciário. As pessoas põem dinheiro hoje e tiram em três meses", alega.
Nagamine explica que existem três tipos de previdência complementar fechada: os fundos de pensões patrocinados por empresas, como o Previ do Banco do Brasil; os fundos instituídos, que agregam associações de classe, como o dos advogados de São Paulo; e os dos servidores públicos, que agora têm de fazer aposentadoria complementar caso queiram se aposentar com salário integral.
Entre os maiores fundos de pensão do País, estão o Previ, com mais de R$ 158 bilhões de investimentos; o Petros, da Pebrobras, com R$ 54,6 bilhões, e o Funcep, da Caixa, com R$ 28,2 bilhões. O fundo de pensão da Copel tem mais de R$ 5 bilhões de capital. (N.B.)


