Com inflação mais baixa em 18 anos, Selic vai a 8,25%
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quarta-feira, 06 de setembro de 2017
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 

Puxada principalmente pela baixa nos preços dos alimentos, a inflação de agosto, medida pelo IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), veio menor que o esperado. O índice, divulgado nesta quarta-feira, 6, subiu apenas 0,19%, contra 0,24% no mês anterior. A inflação acumulada em 12 meses completou um ano de quedas mensais consecutivas, chegando a 2,46%, a mais baixa em mais de 18 anos (ficou igual à de fevereiro de 1999).
"Não é necessariamente bom", afirma o economista, professor da UTFPR e colunista da FOLHA, Marcos Rambalducci. "Os índices de inflação mais baixos que o esperando ajudam o Copom (Comitê de Política Monetária) a decidir pela baixa dos juros, o que é positivo", diz. De fato, o órgão baixou a Selic para 8,25 nesta quarta-feira, 7 (leia mais nesta página). "Mas inflação assim tão acentuada também pode indicar depressão", ressalva. Para ele, o IPCA mostra que boa parte dos brasileiros não tem dinheiro para comprar nada.
Rambalducci considera que a economia brasileira está dando início a um "voo de galinha" e não "de água" porque, embora os juros estejam em declínio, não há garantia de que não voltem a subir. "Se o governo continua neste trajeto de aumentar seu endividamento em 10% ao ano, mais cedo do que a gente imagina terá de voltar a aumentar os juros para conseguir captar dinheiro no mercado e se financiar", declara.
De acordo com o professor, as boas notícias econômicas, como o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) de 0,2% no segundo semestre, devem ser olhadas com cautela. "O endividamento do País (hoje em 78% do PIB) trará consequências desastrosas em 15 meses se nenhuma medida for tomada", avisa. Por isso, ele defende reformas urgentes. Questionado sobre quais reformas, o economista responde: "Qualquer reforma que traga equilíbrio fiscal. Precisamos voltar a ter superavit primário (sobra de recursos para pagamento dos juros da dívida)", afirma.
Sandro Silva, supervisor técnico do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), afirma que a inflação de agosto ficou abaixo do esperado devido à supersafra, que gerou uma queda nos preços de alimentos. "Mas deve haver uma reversão da tendência logo, com a inflação em 12 meses voltando a crescer", afirma.
Mesmo assim, não há expectativa de que a inflação volte a ser um problema "no curto e médio prazo". E, por isso, na opinião dele, o governo deveria fazer um corte mais agressivo nos juros. Ao ser perguntado se a queda da Selic não tem sido significativa, ele devolve: "Juros a 8,25% com uma inflação de 2% (2,46% em 12 meses) são altíssimos. Não adianta nada ter uma inflação tão baixa com uma recessão tão grande. Prefiro um pouco mais de inflação com crescimento econômico", declara.
Descrente de que as reformas possam ajudar o País a voltar a crescer, Silva defende que o governo passe a investir. "Se esperar pelo setor privado vai demorar muito tempo. Historicamente foi assim", alega. No entendimento do economista, o governo deve colocar dinheiro na economia, o que a tornará mais dinâmica e consequentemente aumentará a arrecadação do Estado, promovendo um ajuste fiscal.
Para Rambalducci, no entanto, esse pensamento "keynesiano" não funciona num momento tão grave. "Colocar dinheiro na economia pode ser uma saída se o Estado tivesse uma dívida pequena. Com 78% de endividamento (em relação ao PIB), agir dessa forma é uma irresponsabilidade", alega. Para ele, o governo só deve voltar a investir quando colocar suas contas em dia.

PRODUTOS
Em agosto, dos nove grupos de produtos e serviços pesquisados pelo IBGE, o de Alimentação e Bebidas (-1,07%) e Comunicação (-0,56%) apresentaram sinal negativo. Entre os demais, destacam-se os grupos Transportes (1,53%) e Habitação (0,57%). O primeiro, com 0,27 ponto percentual de impacto no índice do mês praticamente anulou o impacto de -0,27 ponto porcentual do grupo Alimentação.
Pelo quarto mês consecutivo, o grupo dos alimentos teve queda (-1,07%), por causa da safra recorde. Os alimentos para consumo em casa recuaram 1,84%, após a queda de 0,81% de julho. Os destaques foram: feijão-carioca (-14,86%), tomate (-13,85%), açúcar cristal (-5,90%), leite longa vida (-4,26%), frutas (-2,57%) e carnes (-1,75%).
Já a alimentação fora, que havia ficado 0,15% mais cara em julho, subiu 0,35% em agosto.


