São Paulo - Pela terceira vez no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2001), o Brasil vai ao Fundo Monetário Internacional (FMI) pedir dinheiro a fim de tentar conter uma crise financeira. A decisão foi tomada ontem, quando o dólar teve a maior alta desde os picos da maxidesvalorização do real, em 1999, e o risco-país voltou a subir com força, de um patamar que já representa temor de um calote brasileiro. O dólar subiu 5,47%, mais que os 5% de toda a semana passada. Fechou em R$ 3,18, após pico de R$ 3,28.
  A nova escalada da crise deveu-se a uma seca de dólares no mercado externo e interno. Nos últimos dias, os bancos brasileiros lançaram-se numa corrida desesperada para buscar dólares prometidos às empresas endividadas no exterior.
  As companhias brasileiras não encontram crédito para renovar ou pagar seus débitos, dada a desconfiança de bancos e investidores em relação ao país. Em junho, apenas 22% da dívida externa das empresas foi renovada; em 2001, essa taxa estava em 96,5%. Com o aumento da tensão nos mercados, as fontes de dólares no Brasil também começaram a secar. Os bancos ficaram numa sinuca.
  Entrevistas do ministro da Fazenda, Pedro Malan, na sexta-feira, e de seu colega norte-americano, Paul O’Neill, anteontem, ajudaram a detonar a explosão de ontem no mercado. O mercado esperava e não obteve um sinal claro de Malan a respeito de um novo acerto com o FMI.
  Mais uma entrevista desastrada do secretário do Tesouro (ministro das Finanças) dos Estados Unidos, ajudou a aumentar a tensão. O’Neill disse mais uma vez anteontem que não ofereceria ajuda ao Brasil e Argentina em sua visita à América do Sul, entre os dias 5 e 7 próximos.
  Apesar do sufoco dos bancos, Paulo Vieira da Cunha, analista do banco Lehman Brothers (EUA), lembra que a saída de dólares deve-se à amortização de dívidas, e não a uma fuga de capital. ‘‘Os brasileiros não estão tirando o dinheiro dos colchões. As empresas é que estão sendo obrigadas a (ou estão optando por) liquidar suas dívidas em dólar.’’
  O risco-país fechou em 2.164 pontos, em alta de 8,7%. Isso significa que a média dos juros pagos pelos papéis brasileiros acima dos títulos americanos é de 21,64 pontos percentuais. O risco-país é o diferencial de taxa de juros que os papéis do governo pagam acima dos títulos do Tesouro dos EUA (tido como risco zero).
  A Bolsa de Valores de São Paulo encerrou o dia com pequena alta, de 0,25%, a 9.240 pontos. Durante o dia, no entanto, a Bolsa chegou a subir até 4,94%. O mercado de ações doméstico acompanhava a boa alta das Bolsas norte-americanas. No meio da tarde, porém, os investidores optaram por vender as ações e embolsar os lucros do dia, e a Bolsa reduziu sua valorização. O giro financeiro ficou um pouco acima da média diária, em R$ 675,848 milhões.

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