COLUNA DO CORECON
E o acordo de transição?
Em recente entrevista coletiva, o presidente do Banco Central Armínio Fraga indicou a possibilidade de feitura de um acordo de transição com o FMI. Tudo o que País ''não precisa'' neste momento é um novo acerto com o Fundo. Fazê-lo significaria o definitivo reconhecimento do fracasso do programa de ajustamento macroeconômico, desde suas origens com a adoção do câmbio fixo, passando pelas suas adequações pontuais com o sistema de bandas de flutuação da taxa de câmbio e chegando ao regime de metas inflacionárias a partir de janeiro de 1999, por ocasião da desvalorização do real.
Como a verdadeira âncora antiinflacionária foi invariavelmente representada pelos juros reais elevados, a contrapartida da estabilidade de preços constituiu a reduzida expansão dos níveis de atividade econômica, o aumento das taxas de desemprego, e a impulsão do endividamento interno e da vulnerabilidade externa do país.
Por essas razões, a elevação do risco Brasil deriva dos perigos de insolvência externa e interna do país associados ao vertiginoso crescimento das dívidas-gêmeas, em face da intransigente estratégia de juros altos, que exige sacrifícios cada vez maiores tanto para a geração de superávits fiscais primários quanto para a captação de recursos externos (investimentos diretos, empréstimos e superávits comerciais), dirigidos à cobertura dos déficits no balanço de pagamentos.
De uma forma oportunista, as agências de avaliação e algumas instituições bancárias internacionais tem atrelado esses componentes negativos à tendência ascendente e cadente do principal candidato das oposições e do representante do governo, respectivamente, nas pesquisas eleitorais para a Presidência da República. Em outros termos, a conservadora condução da política monetária, acoplada às incertezas eleitorais, mesclando as possibilidades de vitória das oposições e a fraca performance do candidato do governo nas pesquisas, explicam, sobremaneira, a deterioração das expectativas econômicas brasileiras na visão dos mercados globais.
Nesse contexto, é crucial a definição de uma agenda programática de preservação da estabilidade de preços e de resgate das condições de alongamento da dívida pública, englobando (novamente) a explicitação dos ganhadores e perdedores diretos do ajuste nos desequilíbrios em conta corrente do país, inevitavelmente atrelado à impulsão das exportações e à substituição das importações, requisitos básicos para uma etapa de crescimento desprovida de sobressaltos.
Gilmar Mendes Lourenço é economista, professor da FAE Business School, mestre em Gestão de Negócios pela UFSC
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