Marcelo AlmeidaRelação
difícilMovimento na agência de cobrança do Grupo Unidos, em Curitiba, é intenso o dia todo: 700 clientes por dia e estratégia baseada na ‘‘psicologia’’ para convencer os devedores a quitar os débitos que, pelo valor baixo, não justificam protesto judicialNa década de 70, os credores tinham uma maneira nada sutil de cobrar os devedores: contratavam um cobrador que se vestia de vermelho dos pés à cabeça e fazia plantão diário na frente da casa do devedor até receber o dinheiro. O constrangimento público do devedor diante dos amigos e vizinhos apressava o pagamento. Os tempos mudaram e os ‘‘vermelhinhos’’ - como ficaram conhecidos em Curitiba - desapareceram com a intervenção da regional da Ordem dos Advogados do Brasil. Hoje, o Código de Defesa do Consumidor proíbe qualquer atitude semelhante. Mesmo assim, os devedores alegam que ainda são submetidos a pressões exageradas das empresas de cobrança.
Marcelo AlmeidaAssédioA pensionista Célia Lopes Bento diz que já não deve nada, mas a empresa de cobrança não pára de ligar para a sua casa‘‘Eu paguei todas as prestações, não devo nada e mesmo assim a empresa de cobrança me telefona direto. Só estão me incomodando’’, conta a pensionista Célia Lopes Bento, ao deixar a empresa de cobrança Grupo Unidos, no centro da cidade. Revoltada, ela enfrentou uma fila de 60 pessoas para ser atendida e explicar que não devia nada a ninguém. Saiu da sala irritada e com críticas na ponta da língua contra a empresa. Ela garante que quitou as 18 prestações para comprar uma casa pré-fabricada e por isso não deveria ser importunada pela empresa de cobrança.
Depois de horas na fila, o problema foi parcialmente resolvido, pois a Unidos concluiu que o problema da cliente deveria ser resolvido na financeira Losango, que deu o crédito a ela, e, provavelmente, errou nas contas ao imaginar que Célia era inadimplente. Célia conta que não é a única pessoa da família a reclamar da atuação das empresas de cobrança. A sua irmã também teria tido problemas com a empresa. ‘‘Se a gente não fizer como eles querem, eles nos colocam no SCPC (Serviço Central de Proteção ao Crédito)’’, reclama a consumidora.
As empresas de cobrança entendem os protestos dos consumidores, mas alegam que foram criadas para recuperar o dinheiro para as lojas ou financeiras. ‘‘Cobrar é um ato de terrorismo para as duas partes. Ninguém gosta de ser cobrado e às vezes os devedores nos recebem muito mal, quando ligamos já na primeira vez’’, diz o gerente da filial de Curitiba da empresa de cobrança Grupo Unidos, Jair da Silva Júnior.
Considerada uma das maiores empresas de recuperação de créditos, a Unidos tem uma estratégia baseada na psicologia para convencer os devedores a quitar os débitos. ‘‘Preparamos os nossos funcionários para lidar com muito jeito com as pessoas, mesmo porque temos que manter o cliente’’, garante Silva.
A Unidos tem uma carteira de cobrança formada por 40 mil pessoas somente em Curitiba. Os 50 cobradores, que são chamados de ‘‘recuperadores de crédito’’ telefonam para 7 mil clientes todos os dias. A regra básica é ligar para a casa dos clientes, mas há situações onde o devedor é cobrado dentro do próprio ambiente de trabalho.
Nos casos mais extremos, eles chegam a ir na casa do devedor, mas não mais fantasiados de vermelho como antigamente. ‘‘O Código de Defesa do Consumidor obriga a gente a não expor o devedor. Tudo tem que ser feito com sigilo’’, explica Silva. A Unidos conseguiu recuperar dívidas de 13 milhões de devedores no ano passado em todo o País.
Na agência de cobrança da Unidos em Curitiba, há sempre uma rotatividade de devedores que entram e saem da empresa, instalada no terceiro andar de um prédio comercial no centro da cidade. O gerente da Unidos confirma o movimento. ‘‘Chegamos a atender até 700 clientes por dia’’, diz.
Quanto mais o devedor atrasa o pagamento da prestação, mais incide juro sobre o valor original. O juro médio das agências de cobrança varia entre 8% e 9%. Este índice acaba se sobrepondo ao juro embutido pela loja ou financeira, que coloca uma taxa de 4% a 7% sobre o preço do produto à vista. No final das contas, o devedor paga muito mais do que a mercadoria vale. A agência de cobrança cobra das lojas uma taxa que varia de 5% a 20% para recuperar o crédito.

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