O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou ontem um conjunto de medidas para evitar que se agrave o perfil das contas externas do País. As medidas têm impacto em diferentes segmentos da economia e atuam em duas frentes: restringem o endividamento externo e estimulam novos investimentos estrangeiros. As decisões do CMN afetam a vida dos consumidores, que a partir de hoje não poderão mais parcelar as compras no exterior com cartão de crédito e praticamente impedem que bancos estaduais e empresas estatais estaduais possam contrair dívidas no mercado externo, ao mesmo tempo em que torna mais atrativa a aplicação nas bolsas de valores brasileiras.
A decisão de impedir o parcelamento das compras em cartão de crédito no exterior se deve ao peso destes gastos no endividamento externo. De janeiro a abril os consumidores brasileiros gastaram US$ 1,2 bilhão em compras pagas com cartão. Ao mesmo tempo, o CMN praticamente impediu que bancos e estatais estaduais possam contratar empréstimos no exterior para financiar gastos domésticos. A partir de agora, para terem acesso ao dinheiro externo terão que obter, junto a consultorias internacionais, um atestado de que o risco de sua operação é o mesmo atribuído ao governo federal.
O diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, Gustavo Franco, admitiu que esta decisão do CMN atrairá novos investimentos estrangeiros. Quanto maior o ingresso de capitais externos no País, seja em aplicações no mercado financeiro ou na forma de investimento direto na economia, maior a tranquilidade do governo em financiar o déficit em transações correntes, que é resultado das operações comerciais e de serviços do País no exterior. Este ano, o saldo negativo desta conta já é de US$ 10,7 bilhões e, nas previsões do mercado financeiro, pode chegar até US$ 37 bilhões ao final do ano, embora o BC não confirme esta previsão.
De acordo com as explicações fornecidas pelos diretores do BC ao final da reunião do CMN, não se trata de conferir um melhor rendimento aos investidores internacionais que ingressam com recursos no Pais por meio do chamado ‘‘Anexo-4’’, ou seja, investimento nas bolsas de valores. A medida foi caracterizada como técnica, para permitir que o investidor estrangeiro possa compatibilizar aplicações em bolsa com uma operação de ‘‘hedge’’, que representa um seguro contra riscos futuros. Assim, a decisão de ontem, ao permitir que os investidores possam casar suas operações com aplicações no mercado futuro (baseada em índices), favorece a atração de novos investimentos externos.
As medidas significam uma correção de rumos do plano de estabilização econômica, sempre com o objetivo de neutralizar um dos momentos mais delicados do real desde sua implantação em 94, como admitem economistas do governo em conversas informais. Nesse sentido enquadra-se também a decisão de alterar o redutor da Taxa Referencial -TR. (Veja matéria abaixo)

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