Joelmir Beting


‘‘A economia moderna imita o pára-quedas: só funciona quando está realmente aberta.’’
Albert Hirschman, economista teuto-americano.




Clube do trilhão









Pela primeira vez na história do capitalismo opulento, a economia americana precisa juntar apenas as dez maiores empresas nativas para totalizar um PIB de US$ 1 trilhão, redondão. O novo ‘‘ranking’’ anual da revista Fortune documenta o fenômeno: as dez maiores corporações americanas, em bloco, superam o PIB brasileiro em exatamente 25%. Que tal?
Em faturamento bruto, as dez mais somaram, em 1997, exatamente US$ 976 bilhões. Nesta virada de junho, devem estar acima de US$ 1 trilhão, em base anual, a dólar de maio. A liderança do megabloco continua com a General Motors (US$ 178 bilhões). Exatamente metade do PIB da Rússia. Em segundo, no retrovisor lateral, a Ford (US$ 154 bilhões). O dobro do PIB do Chile. Em terceiro, a Exxon (US$ 122 bilhões). Ou 12 vezes maior que o PIB do Paraguai. Completam o clube das dez mais: Wal-Mart, General Electric, IBM, Chrysler, Mobil, Philip Morris e AT&T.
Há um segundo ‘‘ranking’’ embutido na listagem anual da Fortune: o do valor de mercado (estoque acionário) das 500 maiores empresas dos Estados Unidos. Nessa classificação, a coisa muda de figura. Quem desponta na cabeça com o crachá dourado de empresa mais valiosa dos Estados Unidos (e do mundo) é a General Electric. Já devidamente reengenheirada, a GE fatura US$ 91 bilhões por ano, mas vale US$ 260 bilhões. Alguém se habilita? Com o detalhe: pesquisa do Financial Times, de março do ano passado, com mais de 5 mil executivos europeus, apontou a GE como a melhor empresa do mundo para se trabalhar dentro dela. Em segundo, a binacional européia Asea-Brown Boveri (ABB).
Em valor de mercado, o segundo lugar, com US$ 216 bilhões, é da milagreira Microsoft (que ocupa o 102º lugar em faturamento). Em terceiro, a centenária Coca-Cola. Quem quiser comprá-la inteirinha vai ter de emitir um contracheque de US$ 184 bilhões. Em faturamento, ocupa a 68ª posição, com US$ 19 bilhões. A lista das dez mais em valor de mercado é completada, pela ordem, por Exxon, Merck, Intel, Wal-Mart, Procter-Gamble, Bristol-Myers Squibb e AT&T. Cada uma delas vale mais de US$ 100 bilhões.
Para casar US$ 1 trilhão, em valor de mercado, não é preciso juntar as dez mais. Basta somar as cinco maiores do grupo. As dez mais, nessa categoria, totalizam US$ 1,5 trilhão. Quase o dobro do PIB da China, de 1,3 bilhão de terráqueos.
O gigantismo pantagruélico das grandes empresas - incluída as do sistema financeiro - ganha o reforço do processo paroxístico de fusões, de incorporações e de alianças estratégicas. Uma concentração impensável há menos de uma década, agora estimulada pela flexibilização das leis antitruste e pelo desmanche dos monopólios estatais em escala global. Assunto para amanhã.
O desempenho das 500 maiores, ano passado, ajuda a entender a ‘‘irrational exuberance’’ de Wall Street. A rentabilidade média sobre o faturamento foi de 7,8% (contra o ganho recorde de 22,3% no exercício anterior). O que não impediu uma valorização média do bloco, em bolsa, da ordem de 32%.Secos e molhados
Expansão
- O faturamento bruto das 500 maiores cresceu 8,7%, o mais alto índice de expansão anual desde 1973. Para este ano, Wall Street aposta em crescimento menor (7%) das vendas, gratificado por um aumento maior (11%) nos lucros.
Saturação
- Estudo da Merryll Lynch dá o que pensar: as 500 maiores já esgotaram o processo de reestruturação. Acabou o êmbolo da compressão de custos. Ao contrário, desenha-se pela proa, em regime de quase pleno emprego, forte recarga salarial. É do jogo.
Deflação
- Outro tributo ao sucesso: preços em queda, mesmo com expansão da demanda. Uma batalha de vida ou morte entre ganhos de produtividade e pressões da concorrência.

mockup