A recente visita do presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, à China lembra bastante aquela feita no século 13 pelo veneziano Marco Polo. De fato, o mercado de Veneza trouxe para o Ocidente, já na tardia Idade Média européia, a bússola, instrumentos de navegação e de orientação pelas estrelas, a pólvora, dentre outras coisas, essenciais, dois séculos depois, para a era das grandes descobertas. A novidade que Marco Polo trouxe ao Ocidente foi a de que do outro lado do mundo havia uma civilização mais adiantada do que a nossa.
Sete séculos mais tarde, num contexto completamente diverso, Clinton repete Marco Polo. Não para oferecer parceria comercial ao Império do Meio, mas para abrir o mercado chinês ao capital financeiro internacional, concentrado nos Estados Unidos, após a crise asiática de outubro de 1997.
A diplomacia americana enxerga longe e age rápido. Por trás da retórica da máquina de propaganda, que vendeu ao mundo a imagem de que os Estados Unidos e China poderão ser os dois maiores parceiros comerciais do planeta ao longo do século 21, escondem-se interesses bem mais concretos. Um deles - talvez o principal, mas não o único - é tomar o lugar ocupado até o ano passado pelo Japão nos países da Ásia e do Pacífico.
A diplomacia americana sabe que o Japão leverá, na melhor das hipóteses, uns dois ou três anos para reorganizar seu sistema financeiro e sua economia. Portanto, a chance é agora. Impossibilitados de concorrer comercialmente com os nipônicos naquelas duas estratégicas regiões, os americanos têm dois ou três anos para ocupar o lugar dos seus rivais por meio do capital financeiro.
Aparentemente, a tentativa japonesa de exportar o capitalismo financeiro para a Ásia e o Pacífico, ao contrário do ‘‘export drive’’, fracassou. E era precisamente isso tudo o que a diplomacia comercial americana queria e aguardava com ansiedade.
Pois a hora chegou. Avaliados os efeitos, a extensão e a duração da crise asiática, o momento era de agir. E Clinton foi à China.
Mas por que a China? É que ela é o ponto de equilíbrio da região. A crise que se espalhou por lá desde o ano passado causou menos impacto nos mais de um bilhão de chineses do que nos vizinhos. Trata-se, portanto, de socorrer em primeiro lugar a China para que a crise não piore e se alastre ainda mais.
Na volta aos Estados Unidos, Clinton apressou-se em pedir ao Senado a prorrogação por mais um ano do status de nação mais favorecida (NMF) à China. Enquanto o mundo aguardava as arrastadas negociações para ingresso dos chineses na OMC (Organização Mundial do Comércio), os americanos aproveitam o tempo para reciclar o excesso de capital especulativo que afluiu aos seu país após a crise asiática.
Normalmente o fluxo de capitais internacionais gira em torno de US$ 200 a US$ 300 bilhões por ano. Em 97, devido à crise asiática, iniciada após a retomada de Hong Kong pelo governo chinês, ele deve ter crescido algo entre 50% e 100%. Só o Brasil, por exemplo, de outubro a dezembro do ano passado, perdeu US$ 6 a US$ 12 bilhões. De repente, num prazo curtíssimo, a economia americana foi invadida por capitais especulativos, comerciais, financeiros e até mesmo do setor produtivo provenientes da Indonésia, da Coréia, da Tailândia, de Hong Kong, da Malásia e do Japão.
A questão para os Estados Unidos passou então a ser como remunerar esses capitais (boa parte dos quais aplicada na compra de papéis do Tesouro americano) sem baixar muito a taxa de juros pagos aos investidores.
E a única saída é reciclá-los, transformando-os em investimentos produtivos. Mas onde? Na América Latina, via Alca, mas isso ainda demora. Na reconstrução do capitalistmo na Rússia, mas há dúvidas sobre a competência de Yeltsin e sua equipe para tal empreitada. Na Europa Oriental e África, há oportunidades menores, mas os riscos são grandes. Sobrou a China. O maior mercado potencial do mundo, com áreas e distritos especiais para o regime de livre concorrência, e um governo que demonstra ter as rédeas do poder.
É Bill Clinton na pele de Marco Polo do século 20, quase 21, devolvendo à China a tecnologia que ela emprestou ao Ocidente para a descoberta das Américas.
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM).

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