Clima de incerteza inibe empréstimo
Agência Folha
De São Paulo
O sucesso do governo na tentativa de baixar os juros do crédito depende muito mais do cenário macroeconômico leia-se menos incerteza no ar do que de medidas como a redução dos compulsórios. Essa é a avaliação de executivos que lidam há anos com o crédito direto ao consumidor, a partir da constatação de que, mais do que a taxa de juros em si, a expansão do crediário depende de prazos de financiamentos mais dilatados. E isso só se consegue com expectativas positivas. A redução dos compulsórios ajuda a baixar os custos bancários e, por tabela, os juros cobrados de consumidores e de empresas. Acontece que, principalmente no caso das pessoas físicas, a decisão de tomar um empréstimo baseia-se mais no valor da prestação, que, por sua vez, é determinado também pelo prazo.
Suponha uma geladeira que custa R$ 1.000 à vista. Com juros de 6% ao mês e prazo de 12 meses, a prestação (sem impostos, taxas etc.) pode ser de R$ 119. Com juros de 3%, cai para R$ 100. Ainda com 6% ao mês, mas com prazo de 24 meses, o consumidor pagaria R$ 79,68 por mês, ou menos 33%. Em 18 meses, R$ 92,36. Entre 1996 e 1997, a forte expansão do consumo no País foi muito influenciada pelo alongamento dos prazos do crediário e queda do valor das prestações. Foi um dos motivos, aliás, também do aumento da inadimplência naquela época. Quanto maior o prazo, maior o risco de alguém deixar de pagar as prestações.
A partir da crise asiática, no final de 1997, o comércio e as instituições financeiras reduziram os prazos, já que o cenário macro se deteriorou. Também ficaram mais rigorosos na concessão de crédito, aperfeiçoando sistemas, como o credit scoring (que analisa massas de bons e maus pagadores, cruza dados e cria pontuações).
Ao mesmo tempo, o desemprego cresceu e os salários pararam de subir, diminuindo assim renda e consumo. Os juros deram saltos inesperados, e muitos que financiaram a prazos mais longos, com juros prefixados, amargaram prejuízos. O efeito do susto dura até hoje. O próprio consumidor, além de enfrentar queda real de salário, devido ao repique da inflação, controla mais sua ânsia de consumo devido ao temor de desemprego.
As medidas do Banco Central são importantes para reduzir os juros na ponta do crédito, mas seu efeito prático sobre o movimento de vendas ainda depende de um cenário mais desanuviado. Um ponto positivo nesse sentido, avalia-se no mercado de crédito, é a sensação de que o governo FHC retoma aos poucos o controle da situação política e econômica.Executivos do setor de crédito acham que só queda do compulsório não estimula consumo
Arquivo FolhaCABE NO ORÇAMENTO?Consumidor brasileiro baseia-se mais no valor da prestação e no prazo de pagamento do que na taxa de juros quando vai decidir se toma ou não um empréstimo na loja





