O risco país, um conceito estranho a quem não está acostumado com o linguajar do mercado financeiro, finalmente bateu à porta da classe média brasileira, depois da mudança das regras de atualização do valor dos títulos em carteira, que resultou na desvalorização das cotas de fundos DI e renda fixa, considerados investimentos de baixíssimo risco. ‘‘Para mim, aconteceu uma espécie de confisco’’, afirma o analista de sistemas João Marcelo Lima, ainda abalado pelo susto de ver seu investimento valer menos do dia para a noite.
O fundo do qual Lima fazia parte perdeu 0,5% no dia 31, quando foi feita a adaptação à regra de ajuste diário pelo mercado da remuneração dos cotistas. ‘‘O pior é que não tenho certeza de que vou recuperar o que deixei de ganhar’’, diz.
A namorada de Lima, a advogada Fernanda Esteves, perdeu dinheiro em um fundo do ABN Amro e é ainda menos paciente: ‘‘Só não tirei tudo do fundo e voltei para a poupança porque teria de pagar CPMF e ia perder mais ainda. Mas só vou esperar mais uma semana.’’ O humor de Fernanda em relação às perdas dos últimos dias só não é pior do que o dos investidores internacionais, que só na última quinta-feira derrubaram em mais de 4% o valor do principal papel da dívida brasileira, o C-Bond.
Guardadas as devidas proporções que separam os grandes e pequenos investidores, difícil é saber se o nervosismo é maior nas altas rodas do mercado financeiro ou no balcão dos gerentes nas agências bancárias. O advogado Eduardo Montenegro Dotta, que contabilizou seu prejuízo em R$ 800,00 no Santander, se diz indignado com o fato de que, em mais de três anos de participação em fundos de renda fixa, nunca foi informado de que as cotas não eram contabilizadas pelo valor de mercado.

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