O abastecimento do feijão vive situação singular: não há produção, as importações são modestas e, no entanto, os preços se mantêm estáveis, principalmente para o feijão preto das regiões de Curitiba e Ponta Grossa. Para o atacadista e empacotador Wilson Malanski, de Irati, não há crise no mercado, apesar da pouca oferta, porque o consumo vem caindo fortemente nos últimos anos. Os substitutos são tantos que o consumidor pode prescindir, sem reclamar, do tradicional parceiro do arroz.
A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) concorda que a substituição do feijão por ‘‘numerosas outras opções’’ torna o consumidor indiferente à problemas sazonais da produção.
Pelo menos três especialistas confirmam a redução no consumo: o engenheiro agrônomo Gilberto Martins Bello, técnico do Deral; a economista agrícola Ikuyo Kiyuna, do Instituto de Economia Agrícola de São Paulo, e o professor Rodolfo Hoffman, da Unicamp, autor de pesquisas sobre hábitos alimentares dos brasileiros. Ikuyo prefere achar que neste momento os preços não aumentam tanto porque a mercadoria ofertada não é de boa qualidade - ‘‘não há feijão novo no mercado’’ - e isso inibe inclusive as especulações.
Toda a cadeia alimentar do feijão perde. Mas o mais prejudicado, nesta altura, é o produtor, segundo Martins Bello, lembrando que em Guarapuava, na sexta-feira, os cerealistas alegam ter bom estoque, mas com pouco giro. O problema nesse momento também é de qualidade.
Em queda livre Há um acentuado processo de substituição do feijão. O baixo poder aquisitivo do brasileiro não seria suficiente para justificar os números da queda de preferência. A média de consumo na décade de 70 era de 28 quilos/habitante/ano. Na década de 80, a média caiu para 18 quilos/habitante/ ano, chegando a 14 quilos/ano na média dos anos 90. Nos dois últimos anos a média é ainda menor, segundo Gilberto Martins Bello, do Deral.
Em contrapartida, o consumo de frango, um dos itens que dividiram espaço com o feijão, passou de 2,3 quilos per capita/ano na média dos anos 70 para atuais 28 quilos/ano.
Alimento preterido Para o professor Rodolfo Hoffman, a correria da vida moderna não é compatível com o estilo pacato de preparar feijão. Com a mulher trabalhando fora - para reforçar o orçamento ou por uma evolução natural -, as famílias têm um ritmo de vida completamente diferente daquele de 20 a 30 anos atrás, quando a família se permitia fazer a refeição todos os dias.
Na era dos pré-cozidos, o preparo do feijão, decididamente, não faz o estilo do novo perfil da classe média brasileira, segundo o professor. Poderiam ser acrescentados ainda os alimentos semi-preparados e a tecnologia dos eletrodomésticos adequada a essas novas opções.
Hoje a comida já vem pronta. Uma imensa gama delas chega em casa e é submetida a um equipamento rápido como o microondas. Feijão maravilha na panela de ferro só nos fins de semana; mas aí ele tem que concorrer com o churrasco. A tradição brasileira exclui o feijão do cardápio de fim de semana.
O feijão volta a brilhar quando a preocupação é com a qualidade. Mas perde no preço para numerosos outros ‘‘concorrentes’’ como massas e mesmo algumas carnes.
Nas análises das novas opções de consumo, em nenhum momento se atribui mérito à estabilidade econômica do Plano Real, considerado um fato recente. A opção preferencial é, fundamentalmente, uma questão prática, quando não uma questão cultural, e está atrelada à correria que permeia a vida moderna. Vem acontecendo há mais de 20 anos. O Real facilitou o acesso a alguns produtos mas, em contrapartida, impôs uma condição de arrocho que na maioria das vezes não alavancou o poder de compras.
Em termos de perspectiva histórica, a influência do Real, quando muito, pode ter deslocado o consumo para itens de melhor qualidade. Assim, é defensável o argumento segundo o qual, em determinado momento, as pessoas demandaram menos feijão (ou arroz, ovos e pão) porque seu poder aquisitivo permitira acesso à carnes, frutas, tortas, etc.
Mas a contribuição dessas mudanças, em termos históricos, é pequena. No primeiro arrocho salarial os hábitos tiveram que se recompor novamente, com a reinserção à mesa daqueles itens preteridos como o arroz, ovos e pão.
Massas na mesa

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