Classe média percebe que é 1ª vítima
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sexta-feira, 28 de agosto de 1998
France Presse 
A classe média russa, cuja prosperidade era um dos orgulhos do presidente Boris Yeltsin, percebeu em poucos dias que é a primeira vítima da crise econômica e financeira que abala o país. Tanto bancários ou empresas particulares quanto pequenos comerciantes e jornalistas, que acabavam de sair da pobreza em que viviam na época da União Soviética, têm cada vez mais dúvidas quanto o que os espera no futuro próximo.
Não posso imaginar a vida sem cartão de crédito, diz Katia, uma jovem de 25 anos, cuja caderneta de poupança - assim como a de milhares de russos - foi congelada pelo banco SBS Agro, à beira da bancarrota há uma semana.
Ninguém é capaz sequer de imaginar que o SBS Agro possa falir: todos os funcionários do governo e várias grandes companhias russas e estrangeiras têm contas neste banco, continua Katia, que já trabalhou na instituição.
Ao contrário das crises financeiras anteriores, causadas pelas reformas monetárias das últimas décadas e que deixaram sem suas economias em rublos milhões de pequenos poupadores, a crise atual afeta principalmente a nova classe média russa.
Não são mais os operários, mas gente como vocês as vítimas da crise atual, disse, sorridente, o líder do Partido Comunista, Guennadi Ziuganov, aos jornalistas da rádio Ecos de Moscou. Nós somos as primeiras vítimas, mas os operários também vão sofrer os efeitos da crise e da inflação galopante, estimou Ekaterina, funcionária de uma empresa particular estrangeira que vende equipamentos médicos.
Assim como seu marido, que também trabalha no setor privado, Ekaterina não recebeu o salário de agosto, já que o banco congelou a conta de sua empresa. Além disso, Ekaterina, assim como dezenas de milhares de pessoas, tem medo de perder o emprego se sua empresa decidir deixar a Rússia.
Elena, professora de Literatura de 30 anos, tem medo de perder uma importante quantia de dinheiro, congelada em sua conta bancária desde a semana passada.
Este setor da população russa, que foi um dos primeiros a apoiar Yeltsin quando o presidente se apresentou para a reeleição, há dois anos - em muitos casos por medo de uma vitória comunista - sente-se traído e abandonado por seus dirigentes. Um presidente capaz de desaparecer durante três dias em plena crise deixou de existir para mim, resumiu Oleg, advogado de 40 anos, referindo-se a Yeltsin, que ficou entre terça-feira e ontem escondido em sua casa de campo, a 100 quilômetros de Moscou. Embora perceba que está totalmente arruinado, Oleg não participará de nenhuma manifestação de rua, garantiu.
Sacha, de 24 anos, funcionário de uma emissora de televisão russa, lembra de ter saído às ruas para defender Yeltsin nas barricadas durante o golpe de Estado de agosto de 1991. Desta vez, nenhuma manifestação devolverá seu dinheiro, motivo pelo qual terá que continuar vivendo e trabalhando, declarou.
Os preços nas lojas de Moscou poderão ser marcados em dólares, como ocorreu nos piores momentos da inflação, informou ontem o diretor-adjunto do Departamento de Consumo da prefeitura de Moscou, Efim Rybalov, citado pela agência de notícias Itar-Tass.
A volta dos preços em dólares seria, segundo Rybalov, a única solução para evitar que o fluxo de mercadorias se esgote. No entanto, considerou que nenhuma miséria ameaça Moscou no momento, pois segundo ele a cidade tem reservas suficientes.
Anteontem e ontem, algumas lojas que vendem produtos importados fecharam as portas, à espera de que a cotação em relação ao dólar se estabilize, depois da queda vertiginosa da moeda russa desde segunda-feira. Noventa por cento dos produtos alimentares consumidos na capital são de importação, pagos em dólares pelos comerciantes.France PresseVida difícilDonas de casa russas conferem preços nos supermercados: Moscou estuda volta das etiquetas em dólares nas lojas, como nos piores momentos da inflação, como única solução para evitar que as mercadorias se esgotemFuturo é incerto para quem saiu da pobreza da antiga União Soviética


