Classe média paga conta do desemprego
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segunda-feira, 14 de dezembro de 1998
Agência Estado 
A classe média está pagando mais fortemente a conta do aumento do desemprego e do fraco desempenho da economia este ano. O cenário negativo puxou para baixo os salários de todos os trabalhadores, mas atingiu com mais intensidade este ano os que têm renda mais alta. A parcela dos profissionais que ganha salários menores perdeu menos e, em algumas faixas de renda, conseguiu até um pequeno aumento de rendimento este ano.
A queda é mais forte entre os que ganham mais porque os que ganham menos não têm espaço para perder, diz o diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Sérgio Mendonça. Entre os que ganham menos, a capacidade de achatar é muito menor, diz. Esse processo, segundo Mendonça, pode ser explicado pela demissão de profissionais com salários mais altos nas empresas, com o fechamento da vaga e consequente queda no ganho médio nessa faixa de renda.Depois de atingir os que ganham menos, a queda de renda está pegando agora o setor mais organizado dos trabalhadores, diz Mendonça.
A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) realizada mensalmente pelo Dieese, em conjunto com a Fundação Seade, mostra que a parcela de 10% dos trabalhadores que ganham mais (incluindo os contratados com e sem carteira assinada) teve uma perda de 10,6% nos rendimentos entre setembro de 1997 e setembro deste ano. Considerando apenas a variação deste ano, a perda é de 10,4%. Os 10% que ganham mais, na Grande São Paulo, tinham, em setembro, salários acima de R$ 1,8 mil.
Mas a informação mais assustadora é a conta inversa: os 90% restantes ganham menos de R$ 1,8 mil. Isso, na Grande São Paulo, a região do País com o melhores salários, com exceção de Brasília. Esses valores se referem apenas aos rendimentos do trabalho, mas incluem os ganhos obtidos por empresários, autônomos e consultores, além dos próprios assalariados. Em setembro de 1997, o piso dos 10% que ganham mais era R$ 2.014,00.
Considerando apenas os trabalhadores assalariados, os 10% que ganham mais (acima de R$ 1.708,00 em setembro) tiveram o salário rebaixado em 2,8% nos últimos 12 meses. Entre dezembro de 1997 e setembro deste ano, a perda chega a 5,7% e, apenas entre agosto e setembro, foi de 3,5%. Em setembro de 1997, tinham salários a partir de R$ 1.757. Nos últimos anos, o maior valor num mês de setembro foi em 1996, de R$ 1.892,00.
A queda é maior entre os ocupados do que entre os assalariados porque esse primeiro grupo inclui o trabalho não-formal, que tem um comportamento mais elástico. O trabalhador não formal é o primeiro a ganhar quando a economia cresce, mas também é o termômetro que mostra a queda quando a economia se retrai, diz Mendonça.
O comportamento dos salários este ano deixa apenas na lembrança o ganho de renda proporcionado no início da estabilização econômica, com o Plano Real. Segundo Mendonça, a pesquisa mostra que os trabalhadores tiveram aumento de rendimento em 1994, primeiro ano do Real, e em 1995. Em 1996, ainda houve um ganho, mas num ritmo bem menor. Em 1997, o cenário foi de estagnação.
Os 10% que ganham menos tiveram uma variação bem menor. Entre os assalariados, houve até um ganho, de 0,7%, entre setembro de 1997 e setembro deste ano, e de 1,2% em setembro em relação a dezembro de 1997. Entre os assalariados, os 10% que ganham menos recebem atualmente 79,7% do que recebiam em 1985. Os 10% que ganham mais recebem apenas 69,3% do salário de 1985.


