O Banco Mundial (Bird) apresentou relatório ontem que mostra que quase 50 milhões de pessoas ascenderam à classe média entre 2003 e 2009 na América Latina e Caribe. O número mostra uma redução no abismo socioeconômico da região, mas aponta também para a exigência de uma melhor adequação estatal às necessidades da população, que tende a ser mais exigente e a consumir mais. Tendência ainda mais relevante no Brasil, país com crescimento de 40% na classe média, conforme o estudo.
Segundo o Bird, o número de latino-americanos que vivem com valor de US$ 10 (R$ 20,52) a US$ 50 (R$ 102,60) ao dia passou de 103 milhões para 152 milhões em seis anos, ou quase 50% a mais. A fatia representa 30% da população total da região, quase a mesma fatia dos 30,5% de pobres, mas ainda inferior aos 37,5% de vulneráveis. A maior quantidade de pessoas ainda vive com renda de US$ 4 (R$ 8,21) a US$ 10 diários.
O desenvolvimento econômico médio de 2,2% na região do estudo é a principal causa de 43% das pessoas mudarem de classe social desde 1990. Esse crescimento, porém, transforma-se em desafios aos países do bloco. O relatório conclui que é preciso romper com o ciclo de baixa tributação e má qualidade dos serviços públicos, o que leva as classes média e alta a buscarem soluções na iniciativa privada. Diz ainda que é preciso gerar metas mais explícitas de igualdade social e criar uma reforma na assistência e no seguro sociais.
Para o economista Roberto Zurcher, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), o Brasil ainda está longe de um modelo muito comum na Europa, no qual os mais ricos pagam para que os mais pobres tenham serviços públicos. ''Aqui, a transferência de renda é indireta e lá, direta. A mudança é lenta e ainda vai demorar.''
No caso, o Brasil foi considerado um dos países com maior ascensão à classe média no estudo. Zurcher diz que os programas sociais como o Bolsa Família tiveram parcela de responsabilidade. ''As bolsas exercem poder multiplicador na economia e é por isso que o Norte e Nordeste são as regiões do País que mais têm crescido'', afirma o economista, que considera que o defeito do programa seja a parcela de mau uso dos recursos públicos.
Ele completa que o consumidor que antes tinha uma geladeira pequena, por exemplo, hoje busca uma de duas portas, o que aumenta o consumo de energia. O professor de economia Antônio Eduardo Nogueira, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), lembra que a exigência por mudanças aumenta rapidamente com a evolução da sociedade, mas que o Brasil ainda patina para oferecer opções à nova classe média. ''Conforme as pessoas trocam de emprego, aumenta a demanda por produtos, energia elétrica e segurança, por exemplo. Isso implica em mais gastos para o governo, que precisa arrecadar mais.''
Necessidade que não significa um aumento no valor dos tributos. ''O desafio é reduzir impostos e arrecadar mais, o que deveria ocorrer por meio de investimentos na produção maior e na exportação'', diz Nogueira. O professor crê que a demora do governo federal em promover reformas fez com que o Produto Interno Bruto (PIB) despencasse, enquanto Chile, Peru e Colômbia mantiveram taxas mais altas de crescimento.
Zurcher conta que o aumento da venda de carros reflete a relação entre demanda maior e falta de infraestrutura. ''As pessoas compram mais carros e as ruas e estradas ficam mais congestionadas. O mundo sempre se antecipa ao consumo e o Brasil, não.''

Imagem ilustrativa da imagem Classe média aumenta 50% em seis anos na América Latina
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