Rio - Janeiro de 2009 marca uma reversão abrupta nos avanços sociais que caracterizaram boa parte do governo Lula. Em apenas um mês, a classe C nas seis maiores regiões metropolitanas perdeu 11% de todo o seu aumento no governo Lula. Um total de 563 mil pessoas caiu em janeiro da classe C para as classes D e E nas regiões metropolitanas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife.
O recuo na participação da classe C no total da população dessas regiões metropolitanas foi de 1,2 ponto porcentual, saindo de 53,8% em dezembro de 2008 para 52,6%. De janeiro de 2003, início do governo Lula, até dezembro de 2008, a parcela da classe C cresceu 10,8 pontos porcentuais, saindo de 43% para 53,8% na população total das regiões metropolitanas.
O economista Marcelo Neri, que dirige o Centro de Política Social (CPS) da Fundação Getúlio Vargas no Rio, fez os cálculos com base nos dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME). ''A reversão de janeiro é muito preocupante, e é como se a crise finalmente chegasse aos setores populares mais beneficiados pelo governo Lula, e que até dezembro tinham sido pouco afetados'', diz.
Ele ainda não teve tempo de calcular o efeito da PME de fevereiro, divulgada na quinta-feira, na divisão entre as classes de renda. Mas Neri acha que provavelmente o mês passado ficou no ''zero a zero'', nem aprofundando a queda de janeiro nem revertendo-a. Ele diz que é preciso esperar os próximos meses para ver se o que aconteceu em janeiro é um ponto de inflexão histórico nos avanços sociais dos últimos anos, ou se é uma tempestade isolada.
Somando-se as classes A e B à C, foram 765 mil pessoas que saíram das classes média e alta em janeiro de 2009 para as classes pobres, a D e a E, nas seis regiões metropolitanas. Somente a classe E teve um crescimento de 572 mil pessoas em janeiro naquelas regiões.
As classes AB, por sua vez, que cresceram de 11,2% do total da população das regiões metropolitanas para 15,3% entre janeiro de 2003 e dezembro de 2008, recuaram para 14,9% em dezembro. E a classe D, que caiu de 15,53% para 13,18% no governo Lula até dezembro de 2008, cresceu para 13,6% em janeiro. Neri nota que em janeiro, portanto, a mudança na estrutura de classes de renda foi o inverso dos avanços desde 2003: caiu a proporção de AB e C, a aumentou a da D e da E.
As seis regiões metropolitanas da PME correspondem a apenas 26% da população do País. A redução da classe C no Brasil como um todo em janeiro, portanto, deve ter sido bem maior do que a queda de 563 mil pessoas naquelas regiões metropolitanas. Neri diz que não dá para extrapolar diretamente os números da PME para o a população total do País, porque os efeitos da crise podem ter sido mais fortes nas grandes cidades.
A divisão de classes de renda utilizada pelo economista utiliza o conceito de renda familiar total. A PME só traz dados da renda do trabalho, mas Neri e sua equipe têm instrumentos para fazer uma extrapolação confiável da renda total. A classe E tem rendimentos mensais de zero a R$ 800; a classe D de R$ 800 a R$ 1.100; a classe C de R$ 1.100 a R$ 4.800, e as classes AB de R$ 4.800 em diante.
A classe C é a grande estrela não só no Brasil do governo Lula, mas no conjunto dos principais países emergentes durante a espetacular fase de boom global dos últimos anos. Em meados de 2008, antes do início da crise financeira global, um estudo do Goldman Sachs analisava a ascensão da classe média em países como Brasil, China e Índia, prevendo mais dois bilhões de pessoas neste segmento no mundo até 2030. A definição de classe média do Goldman é próxima, em termos de rendimentos, à da classe C brasileira, e corresponde ao que no Brasil se considera a classe média baixa. Uma das grandes preocupações da atual crise é de que ela afete os ganhos sociais não só no Brasil, mas em todo o mundo.

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