Ciro Gomes revela bastidores do Plano Real
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sábado, 03 de julho de 2004
Lu Aiko Otta 
Brasília - ''Você tem coragem de fazer isso?'', perguntou Fernando Henrique Cardoso, então candidato à presidência da República pelo PSDB.
''Isso é meu dever'', respondeu-lhe Ciro Gomes, recém empossado ministro da Fazenda. ''Então, está bem. Obrigado, obrigado'', disse Fernando Henrique. Essa conversa ocorreu pouco antes da abertura econômica, uma das medidas mais polêmicas do Plano Real, relata Ciro Gomes.
Ele conta que, àquela altura, setembro de 1994, o Real já estava fazendo água. Era alvo de aliança entre as montadoras e o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, então presidida por Paulo Pereira da Silva, o Paulinho. Relata Ciro: ''Depois, o Paulinho me disse: 'nossa intenção era destruir o Plano Real. A gente não percebia o Plano como uma coisa séria, achava que era só sacanagem de arrocho salarial e nossa intenção era detonar o Plano'.''
Quando Ciro deixou o governo do Ceará para ser ministro da Fazenda, o Real só tinha dois meses e a inflação já subia. Havia desabastecimento e cobrança de ágio. Os autores do Plano divergiam sobre como atacar o problema. Uma ala, liderada pelo economista Edmar Bacha, defendia uma medida radical: zerar todas as alíquotas de importação, fazer uma abertura total e depois analisar caso a caso. Ciro pediu uma alternativa mais amena.
O então secretário de Política Econômica, Winston Fritsch, sugeriu que o Brasil antecipasse a Tarifa Externa Comum, que na época era discutida com outros países do Mercosul para vigorar a partir de janeiro de 95. Essa proposta foi implementada, com a anuência do então presidente Itamar Franco e do candidato Fernando Henrique. ''Todo mundo concordou. O que eu fiz foi não deixar a parte mais radical prevalecer'', recorda Ciro.
Dez anos depois da implantação do Real, Ciro Gomes decidiu contar detalhes inéditos dos bastidores de sua criação e implementação. Contou que praticamente sequestrou Edmar Bacha para convencê-lo a ir para o governo. Enquanto Fernando Henrique Cardoso tomava posse como ministro da Fazenda, Ciro colocou Bacha num carro e ficou rodando por Brasília, desfiando argumentos. Só parou quando o economista finalmente disse ''sim''.
Ciro conta que a equipe econômica que fez o Real tinha um relacionamento difícil com o então líder do PSDB na Câmara, José Serra. ''A equipe chamava o Serra de palavrão. Eles vão ficar p... comigo, mas agora já é história, vou contar tudo.'' Ciro relata que, entre a eleição e a posse, o presidente Fernando Henrique Cardoso tratou com ''chocante desinteresse'' as ameaças que rondavam o Real. Encaminhava todos os problemas para Paulo Renato Souza.
Os ''pais'' não queriam - O programa econômico que viria a ser o Plano Real nasceu de conversas da assessoria econômica que o então presidente do PSDB, Tasso Jereissati, havia montado. ''A Elena Landau trabalhava comigo no Ceará e o Tasso reunia o André Lara Resende, o Pérsio Arida, o Edmar Bacha, o Luiz Carlos Bresser Pereira e o Fernão Bracher'', relata.
Elaborava-se um programa econômico para quando o partido chegasse ao poder. ''Com a nomeação de Fernando Henrique (para o Ministério da Fazenda), precipitou-se essa questão.'' O Plano estava esboçado, mas a equipe econômica não queria implantá-lo. ''Eles eram contra, porque achavam que o Itamar não tinha condição política para fazer o que tinha de ser feito e uma tentativa desastrada seria mortal.''
O grito de Covas - Empossado na Fazenda, Fernando Henrique começou a promover reuniões secretas, à noite, em seu apartamento.
Fernando Henrique começou uma votação. Mário Covas manifestou-se a favor do Plano, no que foi seguido por Tasso e Ciro. ''E aí deu-se um constrangedor silêncio na vez do Serra falar. Ele calou-se'', conta Ciro. Fernando Henrique tentou pôr panos quentes, oferecendo uma bebida. ''Mas o Covas levantou a voz: 'alto lá! O que é, está todo mundo fazendo de conta que não viu o que o Serra fez?'. E aí virou-se para o Serra. 'O que é, seu Serra? Está pensando que esse negócio vai dar um desastre e aí minha candidatura para governador de São Paulo afunda e você vai tomar meu lugar? Para depois dizer que era contra? Você vai dizer agora se é contra ou a favor!' E aí, o Serra: 'É... sou a favor'. Assim, no grito do Covas.''


