Cientista defende coexistência com transgênico
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terça-feira, 27 de setembro de 2005
Devaldo Gilini Júnior<br>Enviado à Porto Alegre 
Porto Alegre Klaus Ammann parece um ativista fundamentalista de alguma organização não-governamental (ONG) ligada à defesa do meio ambiente. Mas não é. Apesar do senso de humor infinito, demonstra uma acidez quando fala da atuação dos grupos ambientalistas no mundo todo. Crítico ferrenho do Greenpeace e do grupo Amigos da Terra, o diretor do Jardim Botânico de Berna, na Suíça, é uma das principais estrelas do IV Congresso Brasileiro de Biossegurança, que acontece até amanhã, no Hotel São Rafael, em Porto Alegre, numa promoção da Associação Nacional de Biossegurança (ANBio).
''As ONGs são corruptas, não são transparentes e não têm nada de democráticas. Elas manipulam os números e as pesquisas de acordo com suas conveniências e fazem terrorismo, assustando aqueles que não entendem de ciência e agricultura'', diz.
Para o cientista suíço a coexistência entre produtos transgênicos e convencionais é possível desde que haja manejo adequado das culturas. Ele citou ontem, durante café da manhã com jornalistas, pesquisas realizadas na Europa, em países como Espanha, Alemanha e Suíça, além da Ásia e África. Em todas, os resultados mostraram que não houve contaminação das culturais tradicionais pelos transgênicos, nem danos ao meio ambiente. Os estudos foram feitos com milho, soja e algodão.
''Alguns grupos ambientalistas passaram a defender países livres de transgênicos, sem realmente saber sobre o que estão falando, numa atitude que beira à histeria, com a qual não concordo'', afirmou o pesquisador, exibindo a camiseta que usava com os dizeres Gene Peace (Paz dos Genes), nome da ONG que criou na Europa, numa clara referência bem-humorada ao Greenpeace.
Ele destacou que a questão do fluxo gênico (interferência genética, troca entre populações e espécies) depende de cada caso, de cada tipo de cultura e região, principalmente, do tamanho da área cultivada. ''Na Espanha, por exemplo, verificou-se que a distância de isolamento de 6 metros entre o cultivo de milho transgênico e do milho convencional foi suficiente para evitar o fluxo gênico'', contou Ammann.
Outro estudo, realizado recentemente na Alemanha e disponibilizado ontem na Internet, revelou que campos de milho convencional, rodeados por um campo de milho transgênico, não foram afetados. ''Na Suíça, onde é praticada uma agricultura de pequena escala, em áreas reduzidas, esse isolamento varia de 10 a 25 metros e, em algumas regiões, chega ao máximo a 50 metros'', informou.
No caso do Brasil, segundo ele, a preocupação deve ser menor ainda, já que o País pratica uma agricultura de larga escala. Para Ammann, a principal questão a ser discutida pelos brasileiros é o avanço da agricultura mecanizada sobre as áreas de florestas, o manejo inadequado do solo nos plantios convencionais e o uso excessivo de agrotóxicos. ''Estes sim, são problemas que afetam muito mais a biodiversidade do que os transgênicos'', afirmou o cientista.
*O jornalista está participando do congresso a convite da ANBio.


