Cidades industriais não aumentam a produtividade, diz economista
Em palestra no Fórum Desenvolve Londrina, José Pio Martins afirma que distritos industriais não são o caminho para a elevação do PIB
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Em palestra no Fórum Desenvolve Londrina, José Pio Martins afirma que distritos industriais não são o caminho para a elevação do PIB
Simoni Saris 

Entre todas as cidades paranaenses, Londrina tem o quarto maior PIB (Produto Interno Bruto), com R$ 23,6 bilhões. Mas quando se divide esse bolo per capita, a posição do município no ranking estadual cai para o oitavo lugar, o que corresponde a R$ 42,5 mil anuais.
Araucária, São José dos Pinhais, Foz do Iguaçu, Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Cascavel, nesta ordem, estão à frente de Londrina no valor do PIB per capita, dado que permite mensurar o verdadeiro crescimento de um município e conhecer a sua realidade econômica.
O que faz com que Londrina apareça quase no fim da lista dos dez maiores PIBs per capita paranaenses apesar de ser a segunda maior cidade do Estado em população é a baixa industrialização.
As duas primeiras cidades do ranking, por exemplo, localizadas na Região Metropolitana de Curitiba, têm indústrias de grande relevância econômica, como a Repar (Refinaria Presidente Getúlio Vargas), da Petrobras.
Mas a industrialização de um município depende de iniciativas que vão muito além da criação de distritos industriais, disse o economista e professor José Pio Martins, de Curitiba, que nesta quinta-feira (10) esteve em Londrina, onde realizou a palestra PIB per capita: meios e fins para se atingir um padrão elevado, direcionada aos membros do Fórum Desenvolve Londrina.
Para o município, que nos últimos anos apostou na implementação da Cidade Industrial como um projeto propulsor da industrialização de Londrina, a afirmação de Martins pode soar como um balde de água fria.
Mas o economista sustenta sua afirmação com base nas experiências de outros municípios que trilharam o mesmo caminho. “Quase todos os municípios onde foi feita uma cidade industrial, ela nunca foi feita em sua inteireza. Uma cidade industrial tem uma dúzia de elementos. Se de repente faltar um e ele for essencial, ela terá dificuldade”, declarou Martins.
A Cidade Industrial de Curitiba, por exemplo, tinha um problema de ligação com as rodovias, o que dificultava a sua expansão. “A cidade industrial, para ser digna do nome, tem que ser completa, o que não é o caso da Cidade Industrial de Londrina”, ressaltou o economista. A Cidade Industrial de Londrina está em fase de conclusão e a previsão é de que seja finalizada em novembro deste ano.
Martins lembrou que a industrialização da maior cidade do Norte do Paraná sempre foi um tema amplamente discutido pelas administrações municipais como um meio de desenvolver a exploração das matérias-primas existentes no município e região. O economista integrou, por três anos, a equipe de governo do prefeito Wilson Moreira (1983-1988) e exerceu o cargo de diretor geral da Secretaria Estadual da Fazenda no governo de Álvaro Dias (1987-1991). “Em um primeiro momento, isso parecia uma vantagem, e é uma vantagem, mas um ponto muito importante é que aqui sempre teve muita dificuldade de armazenamento, transporte e telecomunicações. Telecomunicações já melhorou, mas ainda há problemas com armazenamento e transporte.”
Segundo o economista, chamar um agrupamento de indústrias de cidade industrial pressupõe um complexo autônomo. “É um negócio meio propagandístico porque não tem os elementos todos de uma verdadeira cidade industrial. Muitos municípios fizeram esses complexos, que levam o nome de cidade ou distrito industrial, mas incompletos, o que é o caso de Londrina.”
Martins destacou que o aumento do PIB londrinense depende, sim, do desenvolvimento da indústria, mas uma indústria que olhe para o futuro e não para o passado. Nesse sentido, sugeriu ele, a cidade industrial do município deveria pensar em desenvolver setores de transformação que não dependam somente das matérias-primas disponíveis na região. “Isso é muito limitado, sobretudo porque aqui é uma região de terras ricas que também já foram exploradas à exaustão e esse é o problema”, avaliou.
Outro ponto, salientou o economista, é que atualmente os terrenos urbanos de Londrina estão muito valorizados. “O caminho é a industrialização moderna, adequado ao mundo de hoje e do futuro e não ao mundo do passado.”
O desenvolvimento da indústria, disse Martins, depende de políticas públicas que viabilizem os projetos financeiramente, mas de forma integrada com os governos estadual e federal. “Um distrito industrial desse padrão, a cidade não faz sozinha. Tem que ter como parceiros o governo do Estado e o governo federal. Depende de acordos e por trás desses acordos, há um relacionamento político que é fundamental. É possível, mas demora para implantar e para maturar os resultados, o que é um problema porque um mandato dura apenas quatro anos.”


