A Argentina está na iminência de perder para o Brasil a linha de montagem de peruas e furgões Sprinter da DaimlerChrysler. A decisão deve ser tomada no máximo até setembro pela alta cúpula do grupo na Alemanha. Estudos realizados pela multinacional mostram que a montadora conseguiria reduzir em pelo menos US$ 2 mil o preço das peruas e em US$ 1,5 mil o dos furgões Sprinter se a linha de montagem de González Catán, a cerca de 40 quilômetros de Buenos Aires, fosse transferida para a fábrica do Dakota que DaimlerChrysler desativou em Campo Largo (Curitiba), de acordo com fontes do setor automotivo.
No início deste ano, o grupo decidira também fechar a fábrica nas proximidades da província de Córdoba, onde eram produzidos as vans Cherokee e Grand Cherokee, inaugurada há apenas quatro anos. Na época, a DaimlerChrysler transferiu parte dos funcionários dessa fábrica para a unidade em González Catán, na Grande Buenos Aires, onde hoje trabalham cerca de 1,7 mil pessoas. A multinacional decidira também investir US$ 10 milhões nessas instalações para produzir os dois modelos com volante à direita para atender demanda de mercados com os da África do Sul, Nova Zelândia e Austrália.
A transferência da fábrica do modelo Sprinter da Argentina para o Brasil não foi confirmada pela assessoria de comunicação da DaimlerChrysler em São Bernardo do Campo (SP), embora fontes do setor tenham informado que essa operação passou a ser estratégica para a multinacional, que vem perdendo mercado para veículos similares fabricados pela Asia Motors, General Motors e Iveco, da Fiat. A unidade argentina da Sprinter praticamente monta as peruas e furgões com peças totalmente importadas. De acordo com informações da própria empresa, 80% da chaparia, da parte interna do veículo e da mecânica são importados da Alemanha. Outros cerca de 20% de peças dos dois modelos, entre elas o eixo traseiro e o motor, são provenientes da montadora no Brasil. Apenas algumas peças do acabamento interno são fabricadas na Argentina.
Com a perda constante de competitividade do país, esses veículos encareceram e não conseguem mais competir no mercado brasileiro. Do volume total produzido em González Catán, por exemplo, 80% são exportados para ao Brasil, 10% são destinados ao mercado interno e outros 10% para outros países da América do Sul.
Mas não é só esse o motivo que pode levar a DaimlerChrysler a transferir sua fábrica da Argentina para o Brasil. Com o fechamento da unidade do Dakota em Campo Largo (PR), a montadora corre o risco de pagar uma multa significativa ao governo paranaense, que, na época da construção da fábrica, concedeu incentivos fiscais à multinacional. Essa multa chegaria a US$ 100 milhões. A transferência da unidade de González Catán para a de Campo Largo ficaria abaixo dessa cifra (cerca de US$ 80 milhões).
Portanto, os custos de logística para a produção do modelo Sprinter ficariam bem menores. Há pouco mais de um mês, executivos do grupo na Alemanha, Brasil e Argentina se reuniram em São Paulo, onde discutiram todos os detalhes, prós e contras da eventual mudança da fábrica. Dada a situação delicada pela qual atravessa a Argentina, a decisão da cúpula da multinacional poderá ter, mais que tudo, teor político, já que, técnica e comercialmente, a fabricação dos furgões e peruas Sprinter na Argentina se tornou inviável.
Caso essa linha de montagem seja transferida para o Brasil, a DaimlerChrysler estaria colocando os modelos Sprinter brasileiros no mercado em um ano. Embora a produção pudesse ocorrer já em seis meses, o fluxo de comercialização demoraria outros seis meses, chegando ao mercado em setembro de 2002. Existe uma segunda alternativa que pode evitar problemas com a Argentina. As instalações de González Catán ficariam responsáveis pelo processamento da chaparia (carcaça), que seria enviada para Campo Largo, onde seria feita a montagem final do veículo.

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