Em 1952, adolescente, tive a graça de ir para a Europa, uma viagem de 20 dias (só de ida), num navio repleto de argentinos e uruguaios. Rapidamente me entrosei com a camada juvenil. Curioso, perguntava tudo; assimilei o idioma e pude conhecer muito de nossos vizinhos, os quais, dizia meu avô, estavam muito ricos por que lã, carne e trigo valiam ouro na guerra recém finda.
A partir daí minha vida ligou-se muito à Argentina. Conheci sua cultura, muita gente, seus hábitos e modo de vida; fiz bons amigos, trabalhei com eles e conheci o País de ponta a ponta. Criei vínculos e admiração.
Desde que me formei, tenho dedicado bom tempo ao estudo das economias do Sul da América e, assim, fui assistindo durante esses 40 anos de profissão, o desenrolar de suas histórias.
No início, os argentinos mantinham uma vantagem econômica de 5 para 1 com relação a nós. Entretanto, o Brasil privilegiado por vários fatores, empreendeu um grande esforço de desenvolvimento e a desvantagem reduziu-se para 2 por 1. A distância diminuiu, o que é bom, mas por outro lado é triste, quando se avalia onde ambos já poderiam estar.
Cada um a seu modo passou as mesmas experiências históricas. Nos últimos anos, no campo econômico, as semelhanças se aproximaram dramaticamente: gastança governamental, corrupção, políticas econômicas equivocadas e o comportamento das elites dirigentes.
Ambos fizeram muitos planos ‘‘ditos econômicos’’, se propuseram à contenção dos gastos governamentais, que não aconteceu, adotaram políticas cambiais erradas, tornando o dólar barato, que piorou a posição das balanças comerciais, destruiu empresas e empregos e ampliou as dívidas interna e externa. Isto levou o Brasil, em 1998, à ‘‘concordata’’ internacional patrocinada pelo FMI, para ‘‘salvaguardar os financiadores’’ externos. A Argentina acaba de fazer o mesmo.
Ambos queimaram quase todo o patrimônio público nas privatizações, para pagar juros e, mesmo assim, o valor apurado não tem sido suficiente. Hoje, tanto aqui como lá, os ‘‘fundamentos da economia’’ pioraram.
Aqui as pressões se tornaram insuportáveis e em 1999 o câmbio foi ‘‘meio’’ liberado. Rapidamente diminuíram as importações e ampliaram-se as exportações, a economia reativou-se, o desemprego caiu, respiramos. Mas como o governo retomou à euforia, voltou a tomar dinheiro emprestado no exterior, para subsidiar o dólar e continuou a gastança. Imediatamente tomamos outra trombada na balança comercial e na de turismo no ano de 2000.
Mas lá as coisas andaram ainda mais lentas. Só agora acertaram com o FMI a salvação dos dinheiros internacionais e um programa de redução da gastança. Entretanto, os argentinos terão uma grande dificuldade em arrumar o câmbio, por que é lei e por que cerca de 85% do endividamento público e privado está dolarizado, posição substancialmente diferente da nossa.
Se não arrumarem o câmbio não vai adiantar nada, é o mesmo filme que estamos assistindo aqui, onde o governo festeja cada vez que consegue empréstimos externos, como se fosse uma honraria.
Manter o dólar barato só subsidiando, pois contraria a ‘‘lei da oferta e da procura’’, que nosso governo, apesar dos esforços, não conseguiu revogar. Mas havendo desvalorização do ‘‘austral’’ argentino, teremos de fazer o mesmo ou será um Deus nos acuda.
A economia argentina é muito competitiva em alguns segmentos, especialmente nos do setor rural; consequentemente poderá alterar as relações de intercâmbio, prejudicando nossa economia.
Mas como a bolada de ajuda montada pelo FMI é muito generosa, perto de 40 bilhões de dólares, a agonia deles vai se arrastar por um bom tempo, favorecendo nossa economia via exportações. Entretanto, se eles não virarem a mesa não resolverão as questões básicas.
Tanto eles como nós, temos sido comandados por equipes econômicas de competências discutíveis, cheias de títulos acadêmicos mas sem nenhuma prática e, pior, que só se preocupam com o mercado financeiro, abandonando a produção, empresas e empregos.
Lastimo pela Argentina, por que admiro o País e sua gente, mas também, por que suas potencialidades são semelhantes às do Brasil, por que esses desencontros minam a consolidação do Mercosul e por que neste jogo de erros nossos países só estão perdendo.
Luiz Antônio Fayet é consultor de Empresas, Membro do Conselho Regional de Economia / Paraná. Foi Deputado Federal e Presidente do Banco do Brasil.
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site: www.fayet.com.br

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