Choque terrorista e duplo discurso
PUBLICAÇÃO
domingo, 30 de setembro de 2001
Dionísio Dias Carneiro 
Diante das dificuldades que o agravamento da situação política internacional traz sobre os fluxos comerciais e financeiros entre os países, uma dúvida destaca-se nas análises dos especialistas e nas opiniões divulgadas pela imprensa. Qual o efeito das novas tensões sobre as perspectivas de desempenho da economia internacional em 2002?
As respostas mais pessimistas baseiam-se nos efeitos contracionistas que o aumento de riscos associados a conflitos políticos tem sobre as decisões de consumir, investir, emprestar e pedir emprestado. O alargamento dos intervalos de confiança para as variáveis que afetam os investimentos domésticos - taxas de juros, poder de compra dos consumidores, gastos do governo e lucros esperados - tornam-se ainda mais grave quando se trata de investimentos que envolvem decisões que ultrapassam as fronteiras nacionais. A razão é que aumentam as incertezas acerca das taxas de câmbio, quando operações político-militares têm efeitos mais importantes sobre os cenários do que o funcionamento normal dos mercados. Neste caso, há um agravante provocado pelo clima de guerra que domina o noticiário sobre as incertezas civis: as taxas de câmbio determinadas pelas forças de mercado são menos confiáveis como sinalização das necessidades de correção de preços relativos, e ainda menos confiáveis são seus movimentos como mecanismos de correção de desequilíbrios das contas externos. O ambiente econômico de guerra gera necessidades crescentes, em caso de conflito aberto, de alocações administrativas de recursos, racionamentos em lugar de alocações via preços de mercado, restrições a vendas, intervenções diretas nos preços e colocações compulsórias de dívida pública.
A mudança contemplada pelos diversos agentes é radical: de um clima de normalidade para um ambiente no qual os cenários de guerra e de patriotismo exacerbado podem, de repente, adquirir maior probabilidade subjetiva de ocorrência. É natural, assim, que as ameaças de conflito tenham gerado imediatamente as reações pessimistas sobre os mercados - revisões radicais de cenários, produzidos principalmente pelos analistas ligados aos mercados financeiros. As mesmas vias modernas e eficientes de comunicação que espalham a informação, espalham as emoções, divulgam as reações em tempo real de políticos e funcionários, de quem passa a esperar-se o milagre de estarem preparados permanentemente para o impensável. No episódio do ataque terrorista, a exposição das reações imediatas de alguns líderes pode ter sido mais danosa para o clima de confiança do que a fragilidade exposta do espaço aéreo da nação mais poderosa do mundo.
De onde vêem as reações menos pessimistas? Estas tendem a concentrar-se menos no impacto imediato, que se derivou da fragilidade das instituições supostamente preparadas para lidar com as surpresas, e mais nos desdobramentos, a médio prazo, dos eventos do dia 11 de setembro sobre o curso das ações dos governos ocidentais. Em particular, há dois aspectos que têm merecido a atenção dos analistas: o primeiro é que a escalada terrorista tornou oportuna para uma maior coordenação internacional das ações políticas e dos incentivos de natureza econômica à cooperação entre as diversas agências de diferentes países voltadas para diminuir a insegurança na movimentação de pessoas e mercadorias. Maior ação internacional conjunta abre mais espaço para uma coordenação das políticas macroeconômicas entre EUA, Europa e Japão, que já se fazia esperar.
Nesse quadro, aumentam as possibilidades de superação da tendência isolacionista da política econômica americana, que se podia depreender de manifestações do secretário do Tesouro, Paul O'Neill. Sem este fator de agravamento das incertezas econômicas que definiam o cenário econômico mais temido para 2002 antes dos ataques terroristas, melhoram as projeções de crescimento, depois que a poeira assentar.
Ficam também claros os benefícios, para a economia internacional, de uma postura mais expansionista da política macroeconômica dos EUA. De um lado, parecem ter perdido relevância, para o mundo, os debates entre economistas saudosos de Clinton (alguns, se não perderam a lucidez, pelo menos perderam a objetividade) e economistas do Partido Republicano. Os primeiros insistem em afirmar que os republicanos estragaram a herança de prosperidade dos anos Clinton.
Os republicanos insistem em acusar o antecessor de Bush por haver espremido os frutos do ciclo muito além da capacidade de gerar sumo. O resultado é que as projeções para 2002 ficam mais otimistas, diante das novas políticas fiscais e monetárias expansionistas. Mas o discurso continua dúbio. Segundo alguns economistas do Partido Democrata, o pessimismo das projeções para o déficit fiscal americano comprometerá o investimento na recuperação. Mas há, agora, maior consenso em torno de aumento das despesas públicas, e isso terá efeito contracíclico importante em 2002. Por seu turno, a contração financeira que se temia, em consequência do fim da bolha, deve ser amenizada por respostas imediatas da política monetária.
Todos os bancos centrais revelam-se inequivocamente dispostos a baixar os juros e estender linhas de crédito aos bancos, para contrabalançar os efeitos potencialmente devastadores, sobre a liquidez, dos prejuízos sofridos imediatamente pelos setores mais atingidos, como companhias de seguros, negócios ligados aos transportes aéreos (das aerolíneas a fabricantes de aviões) e aos ''setores de mais alto risco'', entre os quais devemos incluir as economias emergentes.
Aí, reside outro perigo. O discurso dúbio não é privilégio americano. Prevalece, por exemplo, na Argentina, quando se divide entre discurso ''para o público interno'', nacionalista, gastador e defensor do nível de atividade, e ''para o público externo'', de reafirmação na necessidade de honrar pagamentos e fazer políticas fiscais austeras. Infelizmente, essa incômoda sensação de duplo discurso, continua a estar presente em algumas declarações oficiais no Brasil, e pode agravar-se com a proximidade da temporada eleitoral. Essa dubiedade tem custos potencialmente elevados para o funcionamento destas economias e aumenta o prêmio de risco pago pelas mesmas.
As ações terroristas sincronizadas sobre alvos civis e militares nos EUA demandam definições mais claras, e que podem ser politicamente penosas para aqueles políticos que tentam extrair benefícios eleitorais do duplo discurso com o qual dissimulam seu desconforto com os custos da maior integração internacional. Há uma clivagem clara, no episódio, entre políticos que acreditam que os benefícios da integração internacional superam os custos, que se tornam agora especialmente visíveis, e os políticos que aproveitam a oportunidade para sublinhar os incômodos que enxergam na integração internacional. Mais espaço para o duplo discurso significa, agora, maior custo de financiamento e maior relutância em investir no Brasil. Com ou sem otimismo internacional, a consequência é câmbio e juros mais elevados.
- DIONÍSIO DIAS CARNEIRO é professor do Departamento de Economia da PUC-Rio


