A forma de produzir no mundo já mudou e as mudanças alcançaram o Brasil. As empresas brasileiras, porém, concentraram seus esforços na substituição de velhas posturas gerenciais e pouco investiram em equipamentos tecnológicos. A despeito da crise na Ásia, logo entrarão na fase de investir em equipamentos de alta tecnologia. E é aí que enfrentarão de verdade duas das principais barreiras ao aumento da sua competitividade: o baixo nível educacional dos trabalhadores, aliado à rigidez da legislação trabalhista. As companhias, têm por exemplo, enormes dificuldades legais para adotar remuneração variável, como bônus de produtividade e turno flexível de trabalho.
Estas são algumas das constatações do cientista político Sérgio Abranches, em um estudo intitulado Estado e Competitividade, feito com o engenheiro especializado em logística Paulo Fernando Fleury, para o secretário de Política econômica do Ministério da Fazenda, José Roberto Mendonça de Barros. Segundo os dois estudiosos, as empresas brasileiras estão sendo submetidas a três choques competitivos diferentes - para algumas, os choques estão sendo tomados simultaneamente. Elas não estão se saindo mal, mas precisam tomar cuidado.
Todas as empresas brasileiras hoje têm acesso a programas de qualidade, a custos compatíveis e com tecnologias testadas. Também não é mais impossível o acesso à hardware e software necessário à adoção de programas de qualidade total. O entrave mesmo, reforça Abranches, é o nível educacional dos empregados.
Exemplo Ele cita como exemplo o caso da empresa Ribeiral, de Patos de Minas, uma produtora de sementes que estava enfrentando dificuldades no mercado internacional, por problemas ligados à qualidade dos seus produtos frente à dos concorrentes. Como Abranches conta no estudo, a empresa adotou um programa de qualidade, mas acabou descobrindo que ele não estava dando certo. A razão: os empregados eram analfabetos e não conseguiam compreender nem as instruções oralmente transmitidas. Ler e compreender manuais, portanto, estava completamente fora de cogitação.
A empresa então, deu um aparente passo atrás: organizou um curso de alfabetização no horário de trabalho e depois iniciou o ensino do primeiro grau. Logo o programa de qualidade estava funcionando bem e, além disso, os pais passaram a mandar seus filhos à escola.
De acordo com Abranches, no caso da legislação trabalhista, um grande número de empresas tem enveredado por um processo distorcido de terceirização para contornar a rigidez das leis. O erro é que ao invés de estarem buscando aumento de eficiência, pela escala e com especialização, estão atrás de redução de custos, muitas vezes por intermédio de diminuição salarial. É uma estratégia que, pelos novos paradigmas de produção, não dá bom resultado. Para Abranches, tentar reduzir custos explorando insumos baratos e não pelo aumento da eficiência, ‘‘é uma das piores heranças do velho modelo competitivo’’.

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