Chocolate amargo
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sexta-feira, 04 de março de 2016
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 
O consumidor pagará 38,5% de impostos sobre o preço do ovo de Páscoa neste ano e a alíquota sobre o chocolate ainda aumentará a partir de 1º de maio, de acordo com levantamento divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). A entidade publica estudos do tipo sazonalmente para mostrar à população a quantia de tributos pagos em compras e alertar para a necessidade de melhor aplicação dos recursos em serviços públicos.
No rol de itens mais consumidos na data, o vinho é o que tem maior índice de impostos, com 54,7%, seguido pelo refrigerante em lata (46,4%) e o bacalhau importado (43,7%). Mesmo que o consumidor tente escolher produtos mais em conta do que o ovo de chocolate para presentear amigos e familiares, boa parte dos recursos são retidos em tributos. A participação chega a ser de 37,6% do preço de bombons, de 38,6% para o chocolate em barra e de 38,7% para a colomba pascal, conforme o IBPT.
O presidente do IBPT, João Eloi Olenike, afirma que o governo tem usado o aumento de alíquotas, como a sobre o chocolate a partir de 1º de maio deste ano, e a criação de novos impostos, como a tentativa de ressuscitar o CPMF, para reduzir o rombo nos cofres públicos. "O mercado ainda não absorveu os reajustes tributários recentes, mas certamente estes, em breve, surtirão seus efeitos na mesa do consumidor, que pagará mais caro por esses itens porque a maioria dos tributos está embutido no preço final dos produtos", diz.
Por isso, Olenike aconselha o consumidor a pesquisar os preços dos produtos para tentar economizar. Para o delegado em Londrina do Conselho Regional de Economia (Corecon), Laércio Rodrigues de Oliveira, o aumento de impostos deve ajudar a reprimir a demanda das famílias, já em queda. "Tivemos a divulgação do resultado do PIB que mostrou uma queda no ano passado em relação a 2014 nas compras das famílias e em serviços como alimentação fora de casa, então é um cenário claro", explica. "Há aumento da inflação, queda na renda das famílias por causa do desemprego e as pessoas compram menos e elegem prioridades", completa Oliveira.
O delegado do Corecon lembra que a cobrança de impostos no País é mais indireta, sobre o consumo, do que direta, que é sobre a renda e a propriedade. "Isso significa que a população de menor renda paga mais, proporcionalmente ao que recebe, do que os mais ricos. Porque o preço no mercado é o mesmo para quem ganha um ou dez salários mínimos", cita.
Uma reforma tributária seria necessária para diminuir diferenças, considera Oliveira. Porém, ele cita outras medidas mais simples que poderiam facilitar a cobrança e o entendimento por parte da população, como tributar as grandes fortunas e instituir um imposto único no consumo.
Conversa e pesquisa
O consumidor de Londrina para sob o telhado de ovos de Páscoa em supermercados, olha os preços e reluta em escolher um item para colocar no carrinho. A cena comum mostra que o peso da crise econômica gera reflexão por parte das famílias, em uma tentativa de ser mais consciente. "O preço do chocolate está absurdo e é muito diferente de uma barra para um ovo", reclama o corretor de imóveis Enéias Rodrigues.
Com a mulher e filhos, Rodrigues percorria ontem supermercados em busca do menor preço, mas não descarta optar por similares às marcas mais conhecidas. Sobre o imposto, ele acredita que é preciso simplificar a forma de cobrança. "Somos onerados de todas as formas e por todos os lados. Se fosse cobrado só uma vez na cadeia de produção, talvez o custo fosse mais baixo", sugere o corretor.
A professora Sandra Arcuri opta por conversar com o filho. "Falei para ele que, se fosse um bebê, levaria um ovo, mas, como hoje há diálogo, ele tem de entender que não é prioridade", diz. Ela também pede mudanças na forma como os impostos são cobrados. E pede diminuição nos impostos em produtos que fazem parte da cesta básica, mas também nas necessidades básicas, como saúde. "E é preciso termos uma fiscalização maior também na aplicação dos recursos, porque vemos muita sonegação e não recebemos serviços a contento", completa.



