Brasília - A China saiu vitoriosa do encontro, ontem, entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Hu Jintao. Contrariando avaliações da área técnica do governo, o Brasil reconheceu a China como uma economia de mercado, o que ajudará os chineses a serem tratados pelas mesmas regras dos seus principais parceiros comerciais. Foi o primeiro país de grande extensão territorial a fazê-lo. Em troca, o Brasil atingiu seu objetivo de começar a exportar carne fresca, bovina e de frango, para a China, com perspectiva de vender miúdos em breve. Também melhorou suas chances de se tornar um grande fornecedor de álcool para aquele país e recebeu promessas de investimentos em infra-estrutura da ordem de US$ 10 bilhões. Em seu discurso, Lula disse que foi firmada uma meta de elevar o comércio bilateral para US$ 20 bilhões no prazo de três anos. Hoje, a corrente de comércio é da ordem de US$ 8 bilhões. Também foram assinados acordos em áreas que vão de comércio a combate ao crime organizado, ciência e tecnologia, energia e turismo.
As negociações comerciais, porém, foram difíceis, segundo revelou o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan. ''Parecia um samba de uma nota só'', comentou. Os chineses só insistiam em um ponto: queriam ser reconhecidos como economia de mercado. E conseguiram. Coube ao próprio presidente Hu Jintao anunciar o fato, durante seu pronunciamento oficial após a reunião com Lula.
Segundo Furlan, Lula frisou que o Brasil não acha que a China seja de fato uma economia de mercado no sentido pleno, assim como não considera que o próprio Brasil ou os Estados Unidos o sejam, dadas as barreiras comerciais que existem nesses países. O gesto político, porém, foi feito.
Furlan procurou minimizar o efeito da decisão. ''Eu queria tranquilizar o setor produtivo brasileiro porque isso não faz com que o governo abra mão da defesa comercial na forma que existe hoje'', afirmou. Ele admitiu que a decisão brasileira abre espaço para a China pedir a revisão dos direitos antidumping que lhe foram impostos pelo Brasil no último ano, mas assegurou que eles são poucos e não se referem a setores que são grandes empregadores. Segundo o ministro, o Brasil não abriu mão das salvaguardas que já aplicou e as tarifas de importação continuarão mais altas para setores mais sensíveis.
Com os acordos sanitários, as vendas de frango deverão aumentar US$ 200 milhões ao ano e a carne bovina, US$ 600 milhões, segundo estimativa de Rodrigues. Em contrapartida, o Brasil terá de importar carnes de ave da China. Terá, também, de comprar carne suína, algo que encontrava resistência nos escalões técnicos.

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