Mesmo com a subida do dólar, os empresários brasileiros do setor têxtil continuam preferindo fabricar na China. E não há, no horizonte, nenhuma expectativa de volta da produção para o País. É o que dizem os expositores que participaram, na semana passada, da 6ª Fenim Gramado Primavera-Verão, na Serra Gaúcha.
David El Etter, da Global Co, é um deles. Dono da marca Nicoboco, entre outras, fabrica metade dos seus produtos no Brasil e metade na China. "Fui conhecer a fábrica chinesa em 2002 e fiquei impressionado com a qualificação da mão de obra e com a produtividade", declara. De acordo com ele, não há nenhuma perspectiva de passar a fabricar só no Brasil. "Os chineses fazem em dez dias aquilo que, no Brasil, leva quatro meses", justifica.
A cada coleção, ele leva uma equipe de 15 pessoas para a China. "O nosso pessoal de criação fica por lá mais ou menos dez dias para certificar que a produção sairá como foi planejada", afirma. Por isso, Etter diz não aceitar que seu produto seja chamado de chinês. "Minha roupa é brasileira. É criada aqui, só é fabricado lá", declara. Segundo o empresário, as mercadorias chegam no Brasil custando 102% a mais devido ao transporte e à tributação. "Mesmo assim, sai mais barato que fabricar no Brasil", conta.
O dono de uma marca popular que não quis ser identificado na reportagem, disse que, "nem de longe", pensa em produzir no Brasil. "Falta mão de obra qualificada. Quando tem é muito cara, não compensa", resume.
Ele diz que as facções na China são mais produtivas e confiáveis. "Aqui, não cumprem prazo. Às vezes te deixam na mão", reclama. O empresário também vem fabricando na Índia e diz que a experiência naquele país tem sido muito boa.
O Sebrae de Santa Catarina levou para a Fenim 19 micros e pequenas indústrias. Segundo a consultora Gisella Simões, todas "agregam valor" para competir com as facções chinesas. "Colocam uma pedra aqui, uma estampa diferenciada ali. Ou então, optam por nichos como o plus size (roupa para pessoas obesas)", explica.
É o que faz Esdras Soares, que mantém fábrica em Itapira (SP) há 13 anos. Fora as empresas levadas pelo Sebrae catarinense, ele foi um dos raros presentes na Fenim, cuja fabricação é feita no Brasil. "Já pensei em produzir lá fora, mas não quis arriscar, já que trabalhamos com inovação", afirma.
Produzindo peças femininas que podem chegar a R$ 300 no varejo, ele diz que só consegue competir com a China devido aos "diferenciais". Empregando 40 pessoas, o empresário diz que a desoneração da folha de
pagamento feita pelo governo federal ajudou sua empresa "e muito". Mesmo assim, o peso dos tributos no negócio dele ainda é muito grande. "O ICMS é um absurdo", alega.
Quem também só produz no Brasil é o jovem empresário Mateus Ramalho, dono da marca Kissaman. A família dele mantêm há 20 anos uma fábrica na cidade de Andradas, no Sul de Minas Gerais. Ele conta que a concorrência chinesa fez fechar a grande maioria das confecções da cidade. "Eram 35, agora são apenas sete", afirma.
Segundo Ramalho, o aumento do dólar ajuda por um lado, mas atrapalha por outro. "Metade da nossa matéria-prima é importada", justifica. A parte boa é que a oscilação do câmbio torna mais caro o produto dos concorrentes dele que produzem na China. O jovem sonha em ver no Brasil aquilo que, segundo ele, vem ocorrendo com marcas europeias e dos Estados Unidos, que estão levando de volta a produção para dentro dos seus países. "Voltaram a anunciar na etiqueta que o produto é de fabricação local", afirma.

Novo nome
A feira de Gramado, com 13 edições de inverno e seis de verão, é uma das mais tradicionais do setor têxtil brasileiro. E agora muda de nome. Entre 29 e 31 de outubro, será realizada a 1ª Café no Bule. O diretor Cláudio Goerl explica que a mudança se deve à separação de sua sociedade, ocorrida no início do ano. Somente nesta edição de verão, segundo ele, foram investidos R$ 3,8 milhões em infraestrutura. Trata-se de uma feira de negócios, na qual a organização banca a estadia dos lojistas em Gramado para comprarem mercadorias dos atacadistas.
A primeira edição da Café no Bule, segundo o diretor, terá foco no jeans.

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