O governo chileno disse a seus associados do Mercosul que vai funcionar como uma espécie de cobaia nas negociações com os Estados Unidos. Ou seja, vai antecipar problemas que o próprio Mercosul encontrará mais adiante, quando estiver discutindo a Alca. Foi uma das maneiras de tentar reduzir a profunda irritação, em especial do governo brasileiro, com o fato de o Chile ter trocado a negociação para se tornar membro pleno do Mercosul por um entendimento com os EUA.
Em público, em vez de cobaia, o presidente Ricardo Lagos preferiu dizer que as negociações Chile-EUA serão ‘‘um antecedente importante’’ para o momento em que o Mercosul negociar a Alca. O presidente Fernando Henrique, em público, até comprou a tese, ao qualificar o Chile de ‘‘abre-alas’’ para o Mercosul.
Mas, na prática, nem o discurso de Lagos, ontem, nem o da chanceler Soledad Alvear, anteontem, ambos tentando explicar a troca do Mercosul pelos EUA, abrandaram a irritação. Ao contrário, o discurso foi classificado como ‘‘arrogante’’, conforme a reportagem ouviu no círculo presidencial.
O que causou mais irritação foi o fato de Lagos ter dito: ‘‘Ninguém pode nos pedir que subamos tarifas para depois, todos juntos, baixá-las’’. É uma alusão ao fato de que o Chile tem uma tarifa de importação média de 9%, contra os 14% no Mercosul. Como membro pleno do bloco, sua tarifa teria, portanto, que subir, uma vez que é uma taxação comum a todos.
Fast Track O avanço mais rápido nas negociações para a adesão do Brasil à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) vai depender, agora, da posição que venha a ser adotada pelo presidente eleito dos Estados Unidos, George W. Bush, e da composição final do Congresso americano. O presidente Fernando Henrique Cardoso deixou claro ontem que não pretende abandonar o que chama de uma certa altivez na condução dos entendimentos e que não vai incorporar-se à Alca sem que o presidente eleito consiga o fast track. ‘‘Nós podemos ter um trabalho imenso e depois ser perdido, porque o Congresso americano se caracteriza por ser altamente protecionista’’, criticou.
Ele voltou a condicionar a antecipação do cronograma de implantação da zona de livre comércio à discussão de questões como as barreiras não-tarifárias impostas a produtos brasileiros no mercado americano.

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