Charolês é lado nobre do cruzamento
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segunda-feira, 13 de julho de 1998
Da Redação 
A eficiência de uma raça pode ser medida pela certeza e determinação de quem aposta no seu sucesso. Três anos atrás, o empresário Fernando José Mendes, de Apucarana, adquiriu todo o plantel da tradicional família Mascarenhas, de São Francisco do Pinhal (RS), que era ponto de referência do charolês na América Latina. Não se tratava de uma transação comum. Naquele momento, Fernando Mendes estava adquirindo o fruto de 70 anos de seleção, periodicamente reciclado com matrizes e reprodutores importados da França e Inglaterra. Abraçou o que os técnicos chamam de patrimônio genético. A aquisição também poderia ser considerada uma homanagem à centenária seleção iniciada na Europa.
Com a compra, Fernando Mendes confere à sua Fazenda, a Santa Tereza, mais um traço de ligação com a história do melhoramento do charolês, hoje a raça mais requisitada para cruzamento industrial. Coisa de quem tem certeza do retorno econômico, sabe contabilizar e avaliar todas as curvas de respostas oferecidas pelo gado aos investimentos em tecnologia.
Investir em tecnologia e genética. Isto traduz todo o caminho para chegar a bons resultados econômicos que se consegue reduzindo o tempo de terminação, por exemplo. Não é por acaso que a Fazenda Santa Tereza emprega tecnologia de ponta na coleta e transferência de embriões, passando por todos os demais processos de melhoramento como progênie, controle ponderal, etc. E um manejo de campo que se aproxima da perfeição.
Seleção Com um plantel de 600 animais registrados PO e PC, a Santa Tereza, como os demais criatórios da região, está numa faixa de transição climática interessante, em termos de adaptação. O Norte do Paraná pode ser considerado a região mais apropriada para entrada do charolês no Brasil-Central. O gado é de fácil adaptação, segundo Mendes, capaz de conviver com temperaturas que variam entre 4 graus negativos e 40 graus positivos, extremos de frio e calor.
Acredito na raça porque ela é vanguarda, é o ponto forte na nova pecuária brasileira do cruzamento industrial, do animal precoce, da carne de qualidade que vai atender a um mercado cada vez mais exigente, afirma o diretor da Fazenda Santa Tereza e também presidente da Associação dos Criadores de Charolês do Paraná, Fernando Mendes.
Mas o próprio Fernando Mendes reconhece que isto não é feito por esporte ou por diletantismo. Há que se vislumbrar resultado prático e econômico em tudo. Esta estrutura de campo, laboratórios e administração só faz sentido porque a raça corresponde. O charolês é o precursor do cruzamento industrial no Brasil. Indicadores como: ganho de peso, tempo de terminação e conversão alimentar, são exaustivamente avaliados. As respostas para cada uma dessas variáveis econômicas e técnicas têm que ser sempre as melhores.
Mercado concorrido É uma questão competitiva. Ou se faz o melhor, ou não se tem o mercado, segundo Fernando Mendes. E depois de criar um animal com todos os parâmetros para um ganho médio de 1,6 kg/dia, há que se considerar outro referencial de qualidade, este mais sensível do ponto de vista do consumidor, lá na ponta da cadeia produtiva. É o tipo de carne que queremos servir - afirma. Ele se refere à textura, maciez, paladar e, o que está em moda: uma carne que pende para o lado light. O consumidor não distingue cada um desses quesitos, mas a sua opção preferencial pela qualidade é explícita quando chega ao supermercado e pede carne sem colesterol, por exemplo. Todas as demais qualidades intrinsecas da carne estão embutidas aí, nessa clara tendência do consumidor atual. Modismo? Não. Este é o novo paradigma do mercado. E as fazendas têm que produzir carne para este mercado, exigente em qualidade.
Segundo Fernando Mendes, neste aspecto o charolês está na frente, com sua carne marmorizada, com baixo teor de gordura, como quer o consumidor da Europa, onde a carne dessa raça detém, em média, 25% do mercado sobre as demais.
Se o cruzamento industrial é a palavra de ordem na melhoria da pecuária nacional, o charolês é a parte nobre do cruzamento. As razões para isto estão em cada etapa da cadeia produtiva da carne: vai da progênie da raça - que revela um animal precoce (500 kg até 24 meses) - à nova expectativa do consumidor por uma carne com baixo teor de gordura. A este bom gosto do consumo, o charolês responde com sua carne marmorizada. Em tempo de globalização e concorrência isto faz diferença, segundo Fernando Mendes.
Difusão de técnicas A Fazenda Santa Tereza iniciou o cruzamento industrial nelore x charolês em 1975. Na comparação com outras raças européias o charolês mostrou-se superior em ganho de peso e precocidade. Diante dos excelentes resultados, a Fazenda decidiu dedicar-se à produção do Puro de Origem (PO) para atender às suas próprias necessidades de reprodutores e entrar no promissor mercado da raça charolesa.
Com o aumento da demanda, a fazenda resolveu criar também o Puro por Cruza (PC) - Flor de Liz - que tem um mercado sem fronteira. Ainda em 1995 foi iniciado um trabalho de alta tecnologia com coleta e transferência de embriões a fresco. O resultado foi sensacional, lembra o empresário e presidente da Associação dos Criadores de Charolês. Do total da coleta de três matrizes obtivemos 37 embriões de primeira qualidade, conta o empresário. De lá para cá a tecnologia avançou muito e os resultados dessas conquistas estão disponíveis através dos animais. A venda de cada matriz ou reprodutor não é mera transição econômica, mas um processo de difusão de técnicas que beneficia dezenas de outros criadores.


