Cesta básica na ponta do lápis
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de junho de 2010
Gisele Mendonça<br>Reportagem Local 
Nos últimos nove anos a cesta básica subiu 92,08% em Londrina. Apesar dos avanços no cenário econômico, o salário mínimo ainda não supre a alimentação básica do trabalhador brasileiro. Em maio de 2001, quando o salário era R$ 180, o kit básico para uma família de quatro pessoas custava R$ 315,06 no município. Em maio deste ano, com o salário a R$ 510, é preciso desembolsar R$ 605,16 para comprar a cesta em Londrina.
Dados como esses só tornaram-se possíveis em Londrina com o surgimento do projeto coordenado pelo economista Flávio Oliveira dos Santos, que pesquisa mensalmente a cesta básica em nove supermercados da cidade e fornece os dados para a imprensa local. Criado sem maiores pretensões em 2001, o levantamento tornou-se referência no município, já que a pesquisa do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) - que fornece os dados oficiais da cesta no País - só é feita nas capitais.
Formado há 16 anos pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), o economista constatou essa lacuna em Londrina e começou a pesquisar sozinho o preço dos alimentos. No ano seguinte, em 2002, o projeto passou a contar com apoio da Faculdade Pitágoras, onde Santos leciona a disciplina de economia para o curso de Administração. Hoje, três universitários ajudam na pesquisa. Os cálculos ficam por conta do professor e são baseados no decreto lei 399 de 1938, que estabalece os 13 itens básicos e as respectivas quantidades a serem pesquisadas.
São açúcar cristal (5 quilos), arroz tipo 1 (5 quilos), banana nanica (1 quilo), batata tipo inglesa (1 quilo), café (500 gramas), coxão-mole (1 quilo), farinha de trigo (1 quilo), feijão carioca (1 quilo), leite tipo C (1 litro), margarina (500 gramas), óleo (900 ml), pão francês (1 quilo) e tomate (1 quilo).
A metodologia, que também é utilizada pelo Dieese, aponta ainda o consumo por pessoa no mês para que sejam realizados os cálculos. Como o decreto é muito antigo, algumas quantidades estabelecidas não refletem a realidade da mesa do brasileiro hoje. Alguns exemplos são o feijão (4,5 quilos por pessoa) e o arroz (3 quilos por pessoa). ''Hoje, os hábitos mudaram e nem o trabalhador assalariado consome tamanha quantidade de arroz e feijão'', observa Santos. Na hora da compra, o arroz vem sendo substituído por frutas e legumes, e o feijão por carne.
Segundo o economista, essa substituição é bem mais evidente nas famílias de maior poder aquisitivo, mas o assalariado também acompanha a tendência. ''Para muitos o arroz, por exemplo, ainda é a base. Tanto que nos supermercados de bairros mais pobres é comum a cena do carrinho de compras com vários pacotes de arroz'', pondera Santos. Ele destaca ainda que os itens poderiam ser ampliados - hoje, nas capitais, já existem instituições que fazem a pesquisa da cesta com mais de 30 produtos, com metodologias próprias.
''Aqui em Londrina, sigo os 13 itens porque não tenho fôlego ou estrutura para mudar'', justifica. O economista reconhece que já passou da hora de haver uma mudança na metodologia oficial de cálculo do valor da cesta, mas isto envolve questões políticas e econômicas. ''Talvez seja difícil disso acontecer, pois, mudando (a metodologia), a situação poderia ficar ainda pior, politicamente'', constata Santos, levando em conta que o valor do kit básico poderia ficar ainda mais inacessível para o trabalhador.
Pesquisa de preço
Pesquisada da forma como é hoje, porém, a cesta básica, segundo o economista, é referência importante para a comparação de preços entres as principais cidades e também para mostrar o quanto de salário mínimo é necessário para adquirir o kit básico. Santos reforça que, apesar dos avanços no poder aquisitivo de grande parcela da população, a alimentação do assalariado ainda é um problema para o País. ''Se levarmos em conta o que a Organização Mundial de Saúde preconiza, podemos dizer que, infelizmnente, uma família de quatro pessoas que vive com o salário mínimo passa fome de nutrientes'', constata.
Para driblar as dificuldades, o melhor caminho é sempre a pesquisa de preço. O economista recomenda que o levantamento seja feito em, pelo menos, quatro supermercados próximos da casa da família. No mês passado, por exemplo, ele diz que o quilo da mesma carne (coxão mole) pesquisada custava R$ 8,65 em um estabelecimento e R$ 16,98 em outro. Ele considera que a pesquisa é um instrumento valioso para todos, mesmo quem tem maior poder aquisitivo. ''De ônibus ou de carro, sempre vai compensar'', defende.
Saiba mais
✔ Nos últimos nove anos a cesta básica subiu 92,08% em Londrina. Veja a evolução:
✔ Em maio de 2001, quando o salário mínimo valia R$ 180, o kit básico para uma família de quatro pessoas custava R$ 315,06. Era necessário 1,75 salário mínimo para comprar a cesta.
✔ Em maio deste ano, com o salário mínimo (nacional) a R$ 510, foi preciso desembolsar R$ 605,16 para comprar uma cesta para quatro pessoas. Uma cesta vale, portanto, 1,18 salário mínimo.
Fonte: economista Flávio Oliveira dos Santos


