São Paulo
Tanto na Central Única dos Trabalhadores (CUT) quanto na Força Sindical, o pacote de ontem foi considerado duro demais para com as classes média e baixa. Direta e indiretamente, apenas os trabalhadores pagarão a conta da preservação do Plano Real, disse o vice-presidente da CUT, João Vaccari Neto. ‘‘Talvez as pessoas não compreendam de imediato o que significam essas medidas, que vieram se somar com o aumento das taxas de juros na semana passada’’, disse Vaccari. ‘‘O 13º salário vai segurar um pouco a situação neste final de ano, mas janeiro começará com desemprego e fortes sinais de recessão.’’
O diretor da Força Sindical e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Paulo Pereira da Silva, disse que o pacote tem muito mais coisas ruins do que boas. ‘‘Acho que ninguém mais duvida que janeiro será mês de demissões na indústria, puxadas pelo setor automotivo e de bebidas’’, disse. ‘‘Depois disso, nos meses seguintes, o desemprego será geral.’’
Ontem, mais uma empresa de São Paulo comunicou férias coletivas, por 10 dias. A Silvânia, fabricante de lâmpadas, tem 700 empregados e segundo Paulinho nunca tinha paralisado a produção em pleno mês de novembro. ‘‘Férias coletivas preocupam ainda mais agora, porque depois deste pacote passaram a significar quase um aviso-prévio.’’
No Sindicato dos Bancários de São Paulo, o clima também era de apreensão. O presidente da entidade, Ricardo Berzoini, disse acreditar em forte desaceleração do consumo e da produção a partir deste mês e, se nada for mudado, num primeiro semestre de crescimento negativo. ‘‘Se as taxas de juros não caírem, todos os agentes econômicos vão colocar as barbas de molho e já teremos uma recessão instalada a partir de março ou abril.’’
Como se não bastassem os efeitos práticos das medidas, Berzoini declarou que a situação tende a se agravar em razão do impacto psicológico do pacote. ‘‘O humor das pessoas mudou e as idéias de crise e de riscos de perda de emprego estão prevalecendo’’, afirmou. Isso significa ainda menor disposição para consumo, de acordo com ele.
Ontem o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (Grande São Paulo) fechou acordo com a Multibrás, fabricante das marcas Brastemp e Cônsul, para que a empresa abra um programa de demissão voluntária a seus 1.800 trabalhadores. O objetivo é minimizar o impacto das 500 demissões que foram anunciadas pela empresa, em São Bernardo do Campo (Grande São Paulo), na semana passada. As adesões ao programa devem acontecer até quarta, quando a empresa divulga a lista dos demitidos.

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