Brasília - A recuperação da economia nos primeiros três meses do ano, confirmada pelo crescimento de 1,6% da produção nacional no período, ainda não chegou à mesa da população de baixa renda. Ao contrário, trabalhadores das classes D e E, com renda mensal até 4 salários mínimos (R$ 1.040) estão comendo menos. O volume médio de alimentos consumido por essa parcela da população caiu 6% no primeiro trimestre de 2004 em comparação ao mesmo período do ano passado, segundo o Painel do Consumidor, uma pesquisa realizada em 37 milhões de lares no Brasil pelo Latin Panel, empresa do grupo Ibope em associação com parceiros internacionais.
Mas enquanto itens como óleo, molho de tomate e leite estão saindo da lista de compras das pessoas dessa faixa de renda, o telefone celular entrou com carga total. Entre janeiro e março deste ano, o acesso dos trabalhadores das classes D e E ao celular aumentou 93% em relação a 2003, segundo a pesquisa, que é realizada semanalmente e abrange 86% do potencial de consumo no País, envolvendo 66 categorias de produtos.
O lavador de carros Alessandro Lázaro, 30 anos, é um exemplo dessa realidade. Ele diz que, desde o início do ano, não ''se dá mais ao luxo'' de comprar pães especiais, queijo ou presunto. ''Está tudo muito caro. Cortei de vez, assim como outras coisas que comprava antes'', conta.
Ele passou também a usar marcas mais baratas da cera e do sabão que utiliza no dia-a-dia. ''Se não, não tenho lucro algum'', argumenta o lavador, que cobra R$ 10 pela limpeza completa de um automóvel, no centro de Brasília.
No entanto, pendurado na cintura da bermuda desgastada, ele exibe um aparelho celular adquirido há dois meses por R$ 300. Esse ''novo luxo'' custa a ele R$ 60 por mês em cartões pré-pagos. É o 15º celular de Alessandro nos últimos três anos, conforme ele mesmo lembra. ''Ah, quando as coisas apertam e preciso de dinheiro, vendo o celular, depois compro outro. Sempre de segunda mão'', diz, ressaltando que não é fácil sobreviver com os R$ 500 que chega a tirar em ''um mês considerado bom de trabalho''.
Morando no Pedregal, cidade a 50 km do centro de Brasília, ele gasta R$ 200 com o sustento dos cinco filhos de casamentos anteriores. A renda familiar é reforçada pelo salário de R$ 300 da mulher atual, que é professora primária. O telefone celular, diz, é a única forma de comunicação com a família e a clientela. Por isso, acredita que ele vale a despesa.
O vizinho de bairro e colega de trabalho Thiago Durães, 19 anos, segue o exemplo de Alessandro. Segundo ele, ter um telefone celular compensa um sacrifício temporário. Ele comprou um no início do ano e diz que o aparelho o ajuda no trabalho. ''Quando termino de lavar um carro, aviso ao cliente e ele vem logo acertar comigo. Assim não preciso ficar esperando'', explica. ''Mas não passo o custo da ligação para o preço da lavagem'', destaca.

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