O super acordo

A decisão dos Estados Unidos e da União Europeia de iniciar negociações para um Tratado Transatlântico de Livre Comércio, com início de vigência previsto para 2015, tem potencial para enorme impacto econômico global. Se o acordo sair, mais um pedaço de mercado externo escapará das empresas brasileiras.
As primeiras análises são de que poderá proporcionar crescimento econômico de cerca de 1,5% ao ano nos dois lados do Atlântico, o que não deixa de ser um investimento baixo para a retomada global.
A ideia é antiga e os resultados dependerão de árduas e complexas negociações que envolvem, de um lado, os Estados Unidos, de outro, 27 países. A tarifa aduaneira média no comércio entre Estados Unidos e União Europeia já é muito baixa: menos de 3%. Já indica que, nesse tratado, mais importante do que a derrubada de tarifas será a de regulações e barreiras não tarifárias - como proibições para a entrada de produtos transgênicos e restrições à de carnes suínas pela Europa.
De todo modo, dado o tamanho dos mercados, um novo acordo tende a aumentar substancialmente a escala do comércio entre os dois lados. Se os Estados Unidos elevarem suas importações da Europa e a Europa aumentar suas importações dos Estados Unidos, está claro que sobrará menos dos maiores mercados do mundo para os demais, especialmente para as empresas brasileiras.
A iniciativa é a mais importante depois da criação da Organização Mundial do Comércio, em 1995. Como a Rodada de Doha, que previa avanços multilaterais (no mundo todo) está paralisada, um novo acordo entre Estados Unidos e Europa tenderia a impulsionar nova onda de tratados bilaterais de comércio.
O governo brasileiro parou no tempo. Tem-se recusado a entabular negociações bilaterais de livre comércio. Enterrou o projeto da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), não consegue evoluir no projeto de liberação do comércio entre Mercosul e União Europeia e só anda para trás nas relações comerciais dentro do Mercosul, onde, em vez de diminuir, as travas só aumentam.
O governo brasileiro não é único responsável pela omissão. Os dirigentes do setor industrial, por exemplo, sempre se rebelaram à liberação do comércio entre o Brasil e qualquer bloco econômico sob a alegação de que prejudicaria o setor produtivo brasileiro, dada sua incapacidade de competir em igualdade de condições.
No entanto, em vez de lutar pela redução do custo Brasil, que garantiria mais competitividade, optam por medidas protecionistas que ampliam a reserva de mercado interno, mas são incapazes de abrir mercado externo. Também vem reivindicando políticas de desvalorização cambial (alta do dólar) que o governo não consegue manter devido a seu impacto inflacionário.
As novas negociações bilaterais entre os dois maiores blocos econômicos do mundo devem mudar muita coisa. Outros acordos comerciais serão inevitáveis. Ou o governo brasileiro sacudirá sua inércia ou será mais uma vez ultrapassado pelos fatos.

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