CELSO MING
Fim de ciclo
Além do anúncio do fim do ciclo de corte dos juros, as decisões tomadas na quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom) dão um punhado de indicações para o que pretende o Banco Central nos próximos meses.
A primeira delas é que já não há mais determinação para perseguir o centro da meta de inflação, de 4,5% ao ano. Até agora, por dispositivo legal, o Banco Central estava comprometido a entregar a meta cheia dentro do ano calendário (até 31 de dezembro de cada ano).
Desde 2011, o Banco Central, sob a direção do economista Alexandre Tombini, passou a operar com prazos mais elásticos, mais ou menos como o Banco da Inglaterra, que trata de obter a convergência, mas, não necessariamente, dentro de um prazo rígido. No Brasil, a convergência será buscada, sim, mas fica para quando der, ou, na expressão do Banco Central, ''ainda que de forma não linear''. Espera-se, no entanto, que chegue ainda em 2013. A conferir.
Tanto o sistema de metas da Inglaterra como o do Brasil preveem o mecanismo de molejo na administração do plano de metas porque sempre há os imprevistos e os imponderáveis. O do Brasil tem a tal área de tolerância de inflação, que são os 2 pontos porcentuais ao ano, para cima ou para baixo da meta. O da Inglaterra não precisa dessa área de escape porque não está comprometido a entregar a inflação no ano calendário. No momento, o Banco Central do Brasil trabalha com uma super flexibilidade. Está usando a margem de tolerância na meta e ainda se dá a liberdade de não ter prazo rígido para cumpri-la.
A outra decisão do Banco Central foi dar mais horizonte para os juros. No comunicado oficial divulgado logo após da reunião do Copom, ficou dito que se espera agora estabilidade na oferta de moeda na economia ''por um tempo suficientemente prolongado''. Não é indicação tão clara como a do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que avisou que os juros ficarão onde estão (perto do zero por cento ao ano) até ao menos meados de 2015. Mas é um jeito de dizer que os juros básicos (Selic) ficarão onde estão, nos 7,25% ao ano, enquanto as condições da inflação ou da atividade econômica o permitirem.
Pode-se dizer que o Banco Central está agindo com roupa folgada demais. Não é apenas necessidade de mais conforto operacional, digamos assim. É consequência dos riscos envolvidos. A queda dos juros básicos, em nada menos que 5,25 pontos porcentuais ao ano em apenas 14 meses, numa conjuntura em que o consumo se expande a cerca de 5% ao ano em termos reais e o mercado de trabalho está sob pressão, é uma caminhoneta excessivamente carregada, a mais de 120 por hora, em estrada esburacada e cheia de curvas. Ou seja, agora, o sistema opera próximo do limite. Qualquer imprevisto pode produzir uma derrapada.
Vale insistir em mais duas observações. Primeira, essa mistura de políticas (em que prevalece a busca imediata de avanço do PIB e não só a meta de inflação) não é apenas do Banco Central. E não foi pensada estrategicamente como melhor resposta para a crise. Foi acontecendo. Mas é a política adotada pelo governo Dilma, em que o Banco Central é ator coadjuvante.
Segunda observação: diante da conjuntura de crise, essa mistura de políticas pode ter sido a mais correta, apesar dos riscos envolvidos. O principal efeito é que toda a economia funciona com mais incertezas e isso pode prejudicar o investimento privado.





