CELSO MING
Super, pero no cumplidor
Depois de declarar solenemente, no dia 26, que faria ''de tudo para salvar o euro e, creiam-me, isso será suficiente'', o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, avisou ontem que não pode nada. E disse que a bola está com os dirigentes políticos: ''O BCE não pode substituir os governos e outras instituições''. Ou seja, o Super Mario não é nada do que se supunha ser.
Foi um banho gelado nos mercados. Assim como as declarações da semana passada, reforçadas com pronunciamentos de apoio a Draghi por parte da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e do presidente da França, François Hollande, haviam arrancado entusiasmo, suas novas afirmações produziram enorme decepção.
Mas, afinal, o que é ''fazer de tudo para salvar o euro'' numa situação real em que não se pode fazer nada?
O que aconteceu entre os dois pronunciamentos de conteúdos tão opostos é agora objeto das mais variadas especulações. O super ortodoxo Bundesbank (banco central da Alemanha) pode ter vetado o projeto avançado de Draghi, mas, nesse caso, por que então Merkel o apoiou com força?
Será que os analistas, os mercados e os políticos interpretaram mal as declarações de Draghi da semana passada e passaram a esperar dele o que ele não pode dar? Mas, outra vez, por que então os principais chefes de governo da área do euro respaldaram a mensagem de Draghi tal como foi entendida?
E se Draghi e as demais autoridades imaginavam que poderiam virar o jogo adverso para as economias do euro e, assim, atrair os apavorados aplicadores de volta aos títulos soberanos da Espanha e da Itália, apenas com lindos gorjeios vindos de suas gargantas? Nesse caso, a erosão de credibilidade pode ter sido enorme e, talvez, definitiva.
Draghi disse ainda que os Estados carentes de socorro devem pedi-lo ao fundo europeu de resgate. O primeiro ministro da Itália, Mario Monti, teve pressa em negar que as finanças do seu país precisassem de ajuda. E o presidente de governo da Espanha, Mariano Rajoy, apoiou as novas declarações de Draghi e desconversou sobre se vai pedir ou não socorro ao fundo de resgate.
Ora, Itália e Espanha são os dois países cujos títulos de dívidas soberanas vinham sendo severamente rejeitados pelos investidores a ponto de serem obrigados a pagar rendimentos (yields) e juros próximos e, em alguns casos, superiores a 7% ao ano, já nos níveis do insustentável. Caso não precisem de ajuda e tenham condições de enfrentar a rejeição dos mercados, qual então é o problema?
Na verdade, tanto Monti quanto Rajoy não querem recorrer aos fundos salvadores porque sabem que teriam de aceitar as tais condicionalidades e, nessas condições, as finanças soberanas, sejam elas da Itália ou da Espanha, ficariam sob controle da troica (BCE, Fundo Monetário Internacional e União Europeia).
Sob o efeito da nova postura Draghi, os mercados desabaram. Mas a principal consequência da confissão de impotência por parte de Draghi é a de que os títulos de dívida de Itália e Espanha voltam ao status de cachorros abandonados, sujeitos a encaminhamento para os centros de controle de zoonose.





