CELSO MING
Inflação ainda forte
A inflação de fevereiro medida pela evolução do Índice de Preços ao Consumidor - Amplo (IPCA) mostra desaceleração, mas não dá para confiar em que esse ritmo seja sustentável nos próximos meses, como ontem sugeriu o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.
O IPCA não importa só por dar ideia de como evolui a renda real do brasileiro, mas também porque é a medida de inflação usada como referência pelo Banco Central para definir sua política monetária (política de juros).
São dois os fatores positivos nos números do IPCA de fevereiro: (1) redução das pressões do chamado núcleo de inflação, a estrutura de preços menos sujeita a grandes variações, como ocorre com os alimentos: e (2) menor índice de difusão, ou seja, os preços subiram em menor número de itens (apenas 58,2%) do que nos meses anteriores, especialmente em janeiro (64,7%).
Em compensação, a esticada dos preços dos serviços e dos preços no mercado atacadista não autoriza ninguém a se desarmar em relação ao avanço da inflação neste ano. Dentro do cestão de preços do IPCA, os serviços têm um peso de 30%. Uma das peculiaridades do segmento é a de que quase nunca pode ser substituído por artigos importados. O preço da roupa fabricada no Brasil, por exemplo (que não é serviço, mas mercadoria), não pode disparar, porque importados fazem concorrência. Isso não se dá com os preços do transporte, da escola, dos serviços pessoais (barbeiro, manicure, consultas médicas). E o que se tem sobre a mesa é um avanço dos preços dos serviços de 1,25% em fevereiro (foi de 1,05% em janeiro). Em 12 meses, saltaram 9,35%, enquanto, no período, a inflação foi de 5,85%. Esse fator concorre decisivamente para manter a pressão sobre a inflação.
O avanço nos preços do atacado foi realçado ontem pelo Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM). Em fevereiro, esse indicador apontou evolução negativa de preços (queda de 0,06%). Mas a primeira prévia de março já indica avanço positivo de 0,23%. Como o que acontece no atacado (cujos preços pesam 60% na cesta de preços do IGPM) tende a se espraiar também para o varejo (custo de vida), é preciso contar com nova fonte de tensão no IPCA.
Essas observações podem parecer áridas, ainda mais num fim de semana. Mas ganham importância quando analisadas sob a ótica da política de juros do Banco Central.
Somente a desaceleração da inflação de fevereiro não chega a justificar o aumento da dose no corte dos juros decidido pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na última quarta-feira.
Em março, abril e maio, a evolução do IPCA em 12 meses ainda deve mostrar desaceleração. No entanto, a partir de junho, a tendência de avanço para os 6,0% ao ano tende a se acentuar.
Isso significa que o governo Dilma deverá enfrentar uma puxada mais forte dos preços justamente nos meses mais próximos às eleições municipais que se realizarão em outubro, quando cresce o uso político desse indicador.





