CELSO MING
Sob nova direção
Em somente duas semanas, caíram três dos cinco chefes de Estado que governavam o chamado grupo dos Piigs (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha): George Papandreou, da Grécia; Silvio Berlusconi, da Itália; e José Luis Rodriguez Zapatero, da Espanha.
Os três foram removidos pelo mesmo gigante engolidor de dirigentes políticos, movimento que nada tem a ver com ideologia. Simplesmente, a crise econômica foi maior do que eles.
Nesse fim de semana, a Espanha consagrou o conservador Mariano Rajoy com a maior vitória eleitoral dos últimos 30 anos. Seu partido, o Partido Popular, venceu em 177 dos 179 municípios e amealhou folgada maioria no Parlamento.
Mas os mesmos ventos que transferiram esse montão de votos para Rajoy podem levá-los embora. Ninguém sabe o que o novo governo pretende fazer para dominar a situação atual. Talvez nem mesmo Rajoy saiba claramente.
A Espanha tem a metade da dívida (60% do PIB) da Itália (120% do PIB). Apesar disso, seus títulos estão sob ataque há várias semanas e são obrigados a pagar rendimentos (yields) cada vez mais altos. Mas seu desemprego é recorde. Tem 5 milhões de trabalhadores - 22,6% da população ativa - em busca de trabalho (dados de setembro). O que mais preocupa é o número de jovens desempregados: nada menos que 50% deles. E é nesse segmento que cresce o Movimento dos Indignados. Assim, é o futuro que está sendo mais ameaçado.
A paradeira econômica deve impedir que o PIB da Espanha (quarta maior economia do euro) avance mais do que 0,5% neste ano. Seu principal produto de exportação, o turismo (receitas anuais acima de 50 bilhões de euros), está sendo fortemente açoitado pelo colapso global, que está reduzindo o afluxo de visitantes.
Para sair da encalacrada não há outro remédio que não o convencional: cortes de despesas públicas, encolhimento de salários e aposentadorias, ganhos de produtividade e reformas para dar mais competitividade ao produto espanhol.
Bom número de economistas avisa que esse é o caminho mais curto para a catástrofe, por diminuir a atividade econômica e a arrecadação e elevar o desemprego e as despesas com seguro social. No entanto, sem recursos em caixa, não há como providenciar investimentos públicos que façam a economia decolar.
Ao longo da campanha eleitoral, Rajoy foi lacônico sobre seus planos destinados a ganhar a confiança dos investidores. Não adiantou mais do que um vago pacote de austeridade sem cortes.
Por temperamento, não é dado a radicalidades e preferiria agir gradativamente. Mas raramente o tempo dos políticos converge com o dos mercados. Sob pena de perder sua força política agora arrebatada, terá de agir o quanto antes.
Sabe-se que pretende enxugar a administração pública e levar a cabo reforma trabalhista que simplifique o sistema de contratação de pessoal - numa economia de relevante uso de mão de obra temporária. Espera-se aumento da idade para aposentadoria e criação de fundo de capitalização que financie o seguro desemprego.
Isso tem um custo político. Rajoy começa a governar sem margem para erros. Seu maior risco é o de que seu enorme capital eleitoral desmorone rapidamente.





