Fracassou
  Difícil evitar a palavra fracasso. Ficou a impressão de que essas reuniões de cúpula do G-20 servem mais para que os chefes de Estado das 20 maiores potências do Planeta (cerca de 80% do PIB global) possam comparar o tamanho do próprio ego ao dos outros, do que para aprofundar práticas de governança coletiva.
  A pauta, pormenorizadamente preparada ao longo de todo um ano pelo governo da França, que presidiu e sediou o encontro, foi atropelada dois dias antes pelo turbilhão da área do euro, que ameaçou mandar para o espaço um pedaço enorme da economia mundial. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, desembarcou em Cannes, onde se realizou o evento, e logo tratou de advertir que o principal objetivo era construir uma porta corta-fogo para impedir a propagação da crise do bloco do euro - primeiramente, dentro dele mesmo e, depois, para o resto do mundo.
  Esse projeto consistiria em elevar recursos que se destinassem a socorrer países à beira do precipício - casos hoje da Grécia e, também, da Itália e da Espanha. A ideia anterior, de que outras economias bombassem dinheiro diretamente para o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF), foi barrada na entrada por duas razões: primeira, porque nem os próprios europeus definiram como o EFSF seria alavancado para que pudesse operar como se tivesse 1,3 trilhão de euros; e, segunda, porque os europeus (especialmente os alemães) não querem aumentar suas contribuições e, nessas condições, não podem desejar que emergentes e outras potências de fora façam o que eles não pretendem fazer.
  A outra proposta, de expandir a capacidade de intervenção do Fundo Monetário Internacional (FMI), ficou para ser examinada em outra oportunidade.
  Assim, o único avanço obtido no sentido de instalar uma porta corta-fogo foi o compromisso assumido ‘‘voluntariamente’’ pelo primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, de submeter trimestralmente as finanças da Itália à auditoria do FMI. Não deixa de ser um jeito de incutir a credibilidade que hoje falta na saúde das contas públicas italianas. Mas seria ótimo se simples monitoramentos bastassem para consertar rombos assustadores.
  No mais, foi um amontoado de palavras ditas e depois resumidas no comunicado: ‘‘Concordamos com um plano de ação pelo crescimento econômico e criação de empregos... com aumentar esforços para fortalecer a segurança das finanças globais... com aumentar a regulação das instituições financeiras paralelas (shadow banking)...’’. E foram por aí.
  Alguns dirigentes, como a nossa presidente Dilma Rousseff, procuraram alertar que o ajuste fica mais difícil sem crescimento econômico. Daí por que não se pode insistir em sacrifícios fiscais excessivos. Certíssimo. Mas como se faz isso? De que modo garantir investimentos e crescimento da renda, se os Tesouros nacionais estão quebrados e o avanço do endividamento ficou insustentável? A resposta é que a saída talvez seja emitir moeda e admitir certa inflação, cujo efeito seria provocar erosão das dívidas. Mas coisas assim não vão para os comunicados.
  Na prática, sob convulsões, a encrenca europeia continua sobre o colo dos europeus, de onde não saiu, embora alguns esperassem que os maiorais do mundo talvez pudessem tirar algum coelho de suas cartolas.

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