Os mercados não esperam
  As divergências entre dirigentes da área do euro sobre o que fazer para controlar a crise parecem insuperáveis. Após meses de encontros e discussões, tudo parece novamente emperrado.
  Ontem, esta Coluna tratou de um dos temas das reuniões de cúpula dos chefes de Estado do bloco, agendadas para amanhã e quarta-feira, em Bruxelas: reforçar o capital dos principais bancos. Hoje, focará na nova linha de crédito destinada a resgatar economias na iminência de suspensão de pagamentos (default).
  Desde que começaram a soar os sinais de alarme sobre a disparada dos riscos de calote de títulos de dívida soberana (de tesouros nacionais), lideranças europeias trataram de criar uma linha de financiamento para emergências. É o chamado Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês).
  Esse é o embrião do fundo monetário europeu, que já tem nome: Mecanismo de Estabilidade Europeu (ESM). Está previsto para funcionar em 2013, mas pode ser antecipado, porque as urgências estão aí.
  Um dos problemas do EFSF é seu nanismo para a escala europeia. Será dotado de 440 bilhões de euros (ainda não integralizados), de longe insuficientes para socorrer países grandes, como Espanha e Itália, caso precisem de pronta ajuda.
  São dois os debates sobre a linha de crédito. O primeiro, sobre finalidade. Servirá países sem liquidez ou poderá também capitalizar bancos, sobretudo se a Grécia for autorizada a impor calote de 60% na sua dívida? A França defende a abrangência. A Alemanha é contra.
  Outra questão: a multiplicação do seu alcance sem elevar demasiadamente seu tamanho. É o que em Finanças se chama de alavancagem - mais ou menos como uma dona de casa faz para que um bife ou uma porção de batatas deem conta de um aumento repentino de bocas.
  A primeira proposta é a permissão de que esse fundo emita dívida (eurobônus) que seja solidariamente garantida por todos os participantes do euro. Seria um jeito de dar início à imprescindível união fiscal do grupo. Outra vez, os alemães vetaram. Alegam que a parte maior da fatura acabaria sendo empurrada para eles.
  Mais uma ideia é usar parte desse cacife como seguro contra inadimplências de bônus soberanos. As primeiras estimativas são de que os tais 440 bilhões de euros teriam, assim, amplitude real de 1 trilhão de euros. Ontem, por exemplo, um grupo de fortes bancos e seguradoras fez oficialmente essa reivindicação.
  Uma terceira opção é o Banco Central Europeu (BCE) largar a ortodoxia e atuar nos resgates das dívidas e no suporte das instituições financeiras, diretamente ou por meio do EFSF. Emitir moeda para isso é rigorosamente proibido pelos tratados e pelas práticas de boa governança dos bancos centrais. Mas a prioridade é salvar o euro. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não chegou à beira da irresponsabilidade e imprimiu dinheiro para recuperar o dólar? E por que o BCE não pode fazer o mesmo? Aí, também, França e Alemanha se opõem, mas de divergência em divergência o tempo está se esgotando.
  Um costume mais ou menos comum nas negociações internacionais com prazo para terminar é parar o relógio até que se chegue a um acordo. Esse truque não se aplica aos atuais impasses, porque o mercado financeiro não espera. Quando entra em pânico, fica difícil trazê-lo de volta à normalidade.

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