CELSO MING
Outra vez, o carro elétrico
Carro elétrico: solução ou problema? Dia 5, esta coluna alinhou argumentos que mostravam mais problemas do que soluções. Mas uma torrente de mensagens recebidas por entusiastas do carro elétrico sugere ser preciso apresentar a contestação e as razões pelas quais o presidente do Grupo Renault-Nissan, Carlos Ghosn, o considera ''o carro do futuro''.
De fato, não pode ser ''verde'' um veículo que não ejeta gás carbônico pelo escapamento, mas o emite pela chaminé. Ou seja, nos países onde a eletricidade é gerada pela queima de derivados de petróleo ou carvão (60% da matriz global), a poluição também é liberada.
O analista de sistemas Wilson de Carvalho admite que o carro elétrico não é 100% verde, mas lembra que ''uma termoelétrica funciona como um motor altamente controlado, cuja eficiência energética é a máxima possível e a emissão de poluentes é rigorosamente controlada''. Em contrapartida, conclui, a eficiência do motor elétrico é de cerca de 90%, enquanto a do motor a combustão não chega a 30%. É a mesma alegação de Waldemar Brand Neto, de Curitiba.
O leitor Carlos Pelayo não aceita serem necessárias 13 hidrelétricas da potência de Itaipu para atender a um terço da atual frota, caso essa parte fosse elétrica. Argumenta que 30 milhões de carros Nissan Leaf (elétricos), com bateria de 25 KW/h e autonomia de 160 km, usariam somente a produção média dos últimos três anos em Itaipu, de 93,6 milhões de MW/h anuais.
No entanto, Maurício Lourenço Jorge, do Departamento de Planejamento de Produtos da Ford, entende que esse tipo de carro exigiria, sim, investimentos na infraestrutura elétrica. Por isso, avisa ele, a melhor solução seria o automóvel híbrido, que produz energia elétrica a partir da queima dos combustíveis convencionais.
Outros técnicos, leitores da Coluna, afirmam que a recarga da bateria desses veículos seria feita predominantemente à noite, não nos horários de pico, melhorando o aproveitamento da energia.
Mais defensores do carro elétrico também contestam que a bateria seja um trambolho (500 kg de peso) e que comprometa o desempenho do carro. Lembram que essas coisas começam assim e logo são aperfeiçoadas - caso do celular, antes quase um tijolo.
Sem discordar da relativamente baixa autonomia dos carros elétricos (cerca de 150 km), o professor Orlando Cattiri Júnior, coordenador do Departamento de Produção e Operações da Fundação Getúlio Vargas, pergunta: ''Você precisa de mais autonomia para quê?''. E alguns disseram que ''só taxista ou entregador dirige mais de 150 km por dia na cidade''.
É bom ter em conta essas razões. Em todo o caso, o carro elétrico continua caro demais, não será somente a elevação de escala de produção que derrubará seu preço. Além disso, há de se verificar de que maneira será resolvido o problema da reciclagem das baterias, ainda produzidas com materiais nocivos ao meio ambiente.
Wilson de Carvalho adverte também que o sucesso do automóvel elétrico destruiria um bom pedaço da atual indústria de autopeças, por dispensar queima de combustíveis e ter sistemas bem mais simples de tração. Seria por isso que é tão lento o desenvolvimento do carro elétrico pelas montadoras?





