Contradições na Eurolândia
  Pior que a crise europeia são as inconsistências entre o que dizem e fazem – e mesmo só entre o que dizem – os dirigentes. Assim, vão tropeçando em contradições e em omissões. As duas últimas mostram que não há em quem confiar.
  Na semana passada, o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou documento em que advertia que os bancos europeus deveriam reforçar seu capital em ao menos 200 bilhões de euros para enfrentar a deterioração dos seus ativos. Em seguida, a própria diretora-gerente do FMI, a francesa Christine Lagarde, corroborou o alerta. No entanto, sábado, a mesma Lagarde veio a público e desmentiu o que ela e o FMI tinham sustentado.
  Não ficou claro quem errou e por quê. Mas não é difícil imaginar o que aconteceu. Todas as recomendações de segurança bancária exigem a marcação a mercado dos títulos que estão no balanço dos bancos. E a marcação a mercado aponta para forte desvalorização de uma penca de títulos de dívida da zona do euro, especialmente de Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha. Mas as autoridades não querem admitir que esses títulos já não valem o que está nos contratos. Isso implicaria aceitar desastres ou quase desastres em série.
  O primeiro é o balanço irrealista do Banco Central Europeu (BCE) que, desde maio de 2010, comprou 143 bilhões de euros em títulos de dívida do bloco.
  Segundo, a deterioração dos balanços de boa parte dos bancos europeus e a admissão de que os tais testes de estresse a que foram submetidos há somente dois meses não passaram de um bom teatro.
  E, terceiro, se é verdade que a quebra (default) da Grécia está por um fio, o mesmo serve para o equilíbrio patrimonial dos bancos credores. E isso não vale só para os bancos gregos. Vale também para os outros credores de títulos dos países em perigo. Em ambiente de perda crescente de credibilidade, o contágio é inevitável.
  É por isso que – relatou nesse fim de semana a revista Der Spiegel – o governo de Berlim tem um plano B para salvar os bancos alemães, dando razão à versão do FMI que pede o reforço do capital dos bancos. E, se os bancos alemães precisam de mais capital, por que não os demais?
  A outra inconsistência dos dirigentes foi revelada pela demissão de Jurgen Stark, representante da Alemanha na direção do BCE. Desta vez, a razão real não pôde ser ocultada: Stark saiu por discordar abertamente da atual política do BCE de recompra no mercado secundário de títulos de países do euro. É a segunda demissão em cinco meses. Em abril saiu Axel Weber, que também desistiu de se candidatar à presidência do BCE, com cuja política não concordava.
  O presidente do BCE, Jean-Claude Trichet, argumenta que recomprar títulos é essencial para garantir o futuro do euro, por dar mercado para títulos rejeitados e permitir a redução dos juros que esses países terão de pagar. Fora isso, adverte que essas operações não produzem inflação.
  Mas essa política produz dois efeitos adversos. O primeiro é a concessão de aval disfarçado do BCE para títulos soberanos. O segundo, o aprofundamento do chamado risco moral, por sustentar rombos orçamentários ilegais de um punhado de países do euro.
  Nesse ambiente carregado de contradições e de perda de credibilidade, o mercado financeiro responde como pode. Além da queda geral do valor dos títulos dos países da periferia do euro, vai derrubando as cotações dos bancos europeus.

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