Entenda este impasse
Quarta-feira, a Moody's, principal agência de classificação de risco, advertiu o mercado global que rebaixará os títulos da dívida do Tesouro dos Estados Unidos, caso o Congresso não autorize um aumento do teto da dívida americana. Foi o que ajudou a derrubar as bolsas e tirou o interesse pelas demais aplicações de risco.
É a primeira vez na história recente dos Estados Unidos que os títulos da dívida, que continuam sendo a referência (ou seja, aqueles com os quais se comparam os demais), estão sob advertência de perda de qualidade.
Todo rombo orçamentário (despesa maior que a receita que, neste ano, deve ultrapassar US$ 1,6 trilhão nos Estados Unidos) é coberto com emissões de títulos. Ou seja, o Tesouro, hoje comandado pelo secretário (ministro de Finanças) Tim Geithner, toma dinheiro emprestado para cobrir a diferença. O documento (nota promissória) entregue para quem empresta o dinheiro é o Título (ou Nota) do Tesouro dos Estados Unidos.
A lei fixou um limite para o endividamento. Não pode passar dos US$ 14,29 trilhões, nível atingido em maio e que pode ser ultrapassado no dia 2 de agosto. Se o Congresso não autorizar a elevação desse teto, faltarão recursos para cobrir as despesas correntes do governo. A velocidade com que a dívida dos Estados Unidos está aumentando a torna insustentável. E isso exige um programa imediato de corte de despesas e/ou de aumento de receitas.
O atual impasse está na diferença de projetos. O presidente americano, Barack Obama, propõe um pacote que prevê redução de despesas e crescimento de receitas da ordem de US$ 4 trilhões em dez anos. O Partido Republicano, na oposição, contrapõe com cortes de US$ 2,4 trilhões, sem aumento de impostos. Para que a autorização do alargamento do tamanho da dívida esteja em vigor até 2 de agosto, um acordo terá de ser atingido até o dia 22. Se até lá o Tesouro americano não obtiver o mandato do Congresso, quatro coisas podem acontecer: (1) o Tesouro deixa de pagar certas contas sociais, como seguro-desemprego e seguro-saúde; (2) o governo federal demite funcionários públicos, como Estados e municípios americanos têm feito; (3) o Tesouro deixa de pagar títulos à medida que forem vencendo; (4) haverá uma combinação das três medidas anteriores.
A quebra (default) dos Estados Unidos parece improvável. Mas a simples elevação do teto da dívida não resolve o problema de fundo. A questão principal está na rápida deterioração das condições fiscais do país. No final dos anos 90, quando Bill Clinton era o presidente americano, o debate principal era sobre o que fazer com o enorme superávit fiscal que vinha acontecendo. Na época, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Alan Greenspan, por várias vezes chegou a examinar o impacto que a sobra de arrecadação teria sobre a condução da política de juros: não haveria títulos do Tesouro em nível suficiente para que o Fed pudesse comprar ou vender no mercado, de maneira a injetar ou retirar moeda para definir o nível dos juros. A saída - dizia Greenspan - seria operar a política monetária com títulos privados. Mas, de lá para cá, os Estados Unidos queimaram dinheiro em duas guerras simultâneas, veio a crise de 2007/2008 e a recessão, por sua vez, derrubou a arrecadação.

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