É a força da inflação
  Quem olha apenas para os números do IPCA de julho pode ficar com a impressão errada de que a inflação está recuando. A evolução do IPCA de junho foi de apenas 0,15%, enquanto a de maio foi de 0,47%. Mas até mesmo esse índice mais baixo superou a previsão dos analistas de economia. Avaliação mais atenta mostra que chove forte nas montanhas e que logo subirá o volume das águas que correm no vale. O risco de que o governo Dilma fracasse em colocar a inflação na meta vai subindo.
  O fator deflacionista dos alimentos que vem de quatro meses já deu o que tinha de dar. Daqui para a frente, a alta deverá ser retomada seja pelo novo avanço dos preços das commodities, seja por fatores climáticos (especialmente, tempo frio no Sul do País).
  Também acabou o desinchaço dos preços dos transportes, cujo principal componente foi a baixa dos combustíveis. É que o etanol (álcool) voltou a subir em plena safra da cana no Centro-sul, o grande produtor, indicando que vem aí uma nova puxada dos preços da gasolina (misturada a 25% de álcool), que, por sua vez, jogarão mais combustível na inflação.
  Não se pode desprezar outro disparador dos preços: a pressão da massa salarial, cujos reajustes vêm acontecendo em níveis superiores aos da inflação. A atual conjuntura é de confluência de forte escassez de mão de obra (até mesmo de baixa qualificação) que coincide com o período de renegociação salarial de importantes categorias profissionais - metalúrgicos, bancários, petroleiros e petroquímicos. A demanda continua aquecida, numa situação em que a oferta segue relativamente mais fraca. Como avança acima de 16% ao ano, o crédito também ajuda a aumentar a procura de bens e serviços no mercado. No último Relatório de Inflação, divulgado há uma semana, ao contrário das outras vezes, o Banco Central foi enfático ao apontar a força inflacionária do fator salarial.
  É a partir desse desencontro entre oferta e procura que é preciso entender a disparada da inflação de serviços: foi de 0,6%, em junho; de 5,5%, no primeiro semestre; e de 8,7% em 12 meses. Convém lembrar que esse setor não pode contar com o reforço que a indústria e o comércio vêm tendo das importações.
  Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, observou que perde mais o sono com a derrubada das cotações do dólar no câmbio interno do que com a estocada da inflação. Provavelmente, Mantega não dirá a mesma coisa ao final deste ano, se for confirmada nova estocada nos preços. A presidente Dilma Rousseff sabe que o custo político da inflação é mais alto do que o custo político da baixa do dólar.
  Faltou dizer que está mais do que claro que não aconteceu o efeito deflacionário das medidas macroprudenciais (restrições ao crédito) com que tanto contava o Banco Central. Hoje, apenas dois fatores vêm atuando para conter os preços: a baixa do dólar no câmbio interno (que barateia os importados) e a alta dos juros, cuja eficácia pode estar sendo solapada pelo excessivo gradualismo. Isso pode significar que a temporada de aperto monetário (alta dos juros) vai se prolongar por mais tempo do que pretendia o Banco Central. O custo político disso em 2012, ano de eleições municipais, pode ser alto.

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