CELSO MING
Continua aquecido
Quem olha de relance para a curva do desemprego pode ficar com a impressão de que a atividade econômica está em retração no Brasil. Mas é o contrário que está acontecendo.
A economia continua em franco crescimento. O que mudou foi apenas a velocidade. No ano passado o PIB avançou 7,5% e, neste ano, terá mais alguma coisa entre 4,0% e 4,5%.
O desemprego chegou ao seu ponto mínimo em dezembro, com 5,3% da força de trabalho. Subiu para 6,1%, em janeiro, e aumentou ainda mais em fevereiro, para 6,4%. Mas está longe de indicar uma piora das condições do mercado de trabalho.
A população ocupada no último mês, aponta o IBGE, estava em 22,2 milhões, a mesma de janeiro. No período de doze meses terminado em fevereiro, a economia brasileira teve um aumento de 515 mil ocupados (mais 4,1%).
Salvaguardadas as diferenças regionais, as condições hoje são muito próximas do pleno emprego. O mercado de trabalho continua pressionado. Faltam engenheiros, pedreiros, pintores, soldadores, eletricistas - a lista é enorme. O setor em que houve mais redução de ocupação no Brasil foi o de serviços domésticos. A razão disso provavelmente foi a migração de mão de obra para a indústria ou para o setor de serviços, cujas proporções dentro do PIB crescem ano a ano.
Na Carta Ibre, a ser divulgada na próxima segunda-feira, a revista Conjuntura Econômica, da Fundação Getúlio Vargas, avalia que a oferta de trabalho vai se expandindo ao ritmo de 1,8% ao ano, acima do crescimento da população economicamente ativa, de 1,5% ao ano. E que esse é um fator limitador do crescimento econômico futuro no Brasil (crescimento potencial).
Não é o único. A poupança doméstica continua baixa demais, o investimento está insuficiente, em torno de 19% do PIB, quando teria de ser de alguma coisa em torno de 24%. Isso exige mais importação de poupança e investimentos.
E tem essa cavalgada dos preços que, medida como custo de vida (IPCA), ameaça ultrapassar os 6% no período de doze meses. A inflação elevada demais que ataca a economia é tanto o resultado do crescimento econômico acima da capacidade das pernas quanto fator limitador do crescimento econômico do período seguinte, na medida em que exigirá, como está acontecendo, uma política monetária (de juros) mais apertada, combinada com ajustes fiscais (cortes de despesas públicas), cujo resultado será a já esperada desaceleração da atividade.
Este início de governo enfrenta um conjunto impressionante de surpresas. Ninguém imaginava na virada do ano que se espraiaria uma revolução na comunidade islâmica, com impacto dramático sobre os preços do petróleo. Também não estava no radar de nenhum observador a disparada dos preços das commodities num momento em que a economia dos países ricos ainda está se convalescendo da crise financeira. Ninguém poderia prever as turbulências que agora estão flagelando a economia do Japão e os mercados de câmbio.
O avanço da inflação no Brasil - esse, sim - estava mais previsível. Mas tanto o governo como o Banco Central preferiram fingir que não a viam, porque deram prioridade para a eleição da candidata oficial. É por isso que a conta a pagar ficou mais alta. E há dúvidas de que o governo Dilma tenha feito até agora o suficiente para virar esse jogo.





