Mais contexto do que texto

Quem se detiver apenas na pilha de memorandos e protocolos oficiais a serem assinados hoje e amanhã poderá ficar com a impressão de que essa viagem ao Brasil do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, produzirá mais espuma e troca de sorrisos do que resultados práticos.
Este é um encontro de chefes de Estado do Brasil e dos Estados Unidos com mais contexto do que texto. A presidente Dilma Rousseff já advertiu de que ficou para trás o tempo da Aliança para o Progresso, o programa de distribuição de alimentos e de remédios à América Latina que os Estados Unidos proporcionaram nos anos 60. E isso, por si só, já é um sinal do que mudou.
Para entender o que e quanto foi modificado, é preciso um certo afastamento no tempo, para o final do século 19 e início do 20, quando o emergente era os Estados Unidos.
Nessa época, os americanos deram seu salto qualitativo global sem precisar contar com os préstimos do seu futuro quintal da América Latina. Dispunham de profusão de matérias-primas, alimentos, energia e capitais. Do Chile e da Bolívia, ainda buscaram algum suprimento de cobre e de estanho. Do Brasil, que pouco tinha a oferecer para a locomotiva americana, importaram uma sobremesa, o café.
Foi por isso que, durante quase todo o século 20, o País comeu o pão que o diabo amassou e só promoveu uma industrialização tardia. Não teve recursos abundantes para financiar seu desenvolvimento.
As condições agora são outras, principalmente porque os emergentes da hora, China e Índia, são pobres em matérias-primas, alimentos e energia, justamente o que o Brasil pode fornecer e, a partir daí, garantir condições para a decolagem econômica e geopolítica. É uma situação que tende a afastar o Brasil da órbita dos Estados Unidos. Esse fortalecimento dos laços comerciais brasileiros com a Ásia parece, de fato, a principal preocupação americana. Por outro lado, Dilma deu a entender que pretende reequacionar as relações com os americanos, prejudicadas pela excessiva aproximação do então presidente Lula com o governo do Irã, liderado por Mahmoud Ahmadinejad. Nas suas últimas manifestações, falou em nova parceria estratégica com os Estados Unidos.
Não dá para ignorar a intenção do governo americano de engatilhar novos negócios e, assim, ajudar a recuperar a balança comercial que há tempo enfrenta rombo anual da ordem de US$ 500 bilhões. São aproximadamente 400 os empresários que desembarcam aqui com Obama, e eles querem vender. Em contrapartida, o Brasil tem que reivindicar a redução do protecionismo comercial dos Estados Unidos, especialmente na área dos alimentos, do algodão e do etanol.
O momento demonstra também que é preciso dar mais atenção à escassez de energia dos próximos anos. Assim como ficou para trás o jogo dos tempos da Aliança para o Progresso, também ficaram quase esquecidos os tempos do Relatório Link, elaborado pelo geólogo americano Walter Link, que desaconselhou a procura de petróleo no Brasil em terra firme e foi visto pelos nacionalistas como agente de Tio Sam apostando no nosso eterno atraso. As descobertas no pré-sal mostram que o País pode se tornar um exportador e, também aí, os Estados Unidos poderão vir a ser um parceiro estratégico.
Em todo o caso, mais importante do que os documentos a serem assinados, será o sinal que os chefes de Estado estarão passando para o mundo. A conferir.

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