CELSO MING
O que Geithner não disse
O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Tim Geithner, está se propondo a ser uma espécie de João Batista, aquele que vem na frente, de maneira a aplainar os caminhos de quem vem depois dele, o senhor Obama, cuja viagem ao Brasil está agendada para meados de março.
Em seu pronunciamento feito ontem na Fundação Getúlio Vargas, ele passou o recado de que o Brasil está no caminho certo, mas que é preciso mais: é preciso coordenar políticas e obter o apoio de outras grandes economias. Pareceu claro que o governo americano quer amarrar o governo brasileiro numa cruzada contra o jogo da China, que mantém obstinadamente desvalorizada sua moeda, o yuan.
O Brasil se queixa do excessivo afluxo de moeda estrangeira? Pois os grandes culpados são certos países emergentes, foi logo apontando Geithner, e aí nem precisou citar explicitamente o nome do principal deles. E, como convém nessas ocasiões, Geithner não deixou também de empurrar boa parte do problema de volta para o Brasil, na medida em que continua conduzindo uma política monetária de juros elevados demais, chamariz apetitoso para os administradores de riqueza financeira.
A política de desvalorização do yuan é, sim, fator de perda de competitividade do produto brasileiro, especialmente porque está amarrada ao forte atrativo por moeda estrangeira, que é a política de juros altos praticada pelo Brasil. Mas Geithner em nenhum momento pareceu disposto a admitir que o país que mais contribui para o dilúvio de liquidez na economia mundial e para os desequilíbrios que estão aí são os Estados Unidos.
O governo americano está gastando demais, vai aumentando o rombo orçamentário à proporção de US$ 1,4 trilhão por ano. É por isso que o Tesouro americano vai sendo obrigado a esticar a sua dívida, que agora vai para US$ 13,9 trilhões, mediante vendas de títulos (treasuries).
Mas tudo não para por aí. Em seguida vem o Fed (o banco central dos Estados Unidos), sob a justificativa de que tem de financiar a recuperação da atividade econômica e do emprego, e se põe a recomprar boa parcela desses títulos, em operações denominadas afrouxamento quantitativo (quantitative easing). Já despejara US$ 1,7 trilhão em emissões de moeda nos dois últimos anos e desde dezembro está despejando mais US$ 600 bilhões, à proporção de US$ 75 bilhões por mês.
Tudo se passa, portanto, como se o Fed estivesse imprimindo moeda para pagar uma grande parte das contas do perdulário governo. E é claro que isso tem consequência, embora Geithner se defenda com o frouxo argumento de que é do interesse de todo o mundo que a economia americana se recupere para que a locomotiva siga puxando o resto do trem.
Por enquanto, o efeito inflacionário ainda não apareceu e parece longe de aparecer porque o consumo vai sendo contido pela crise. Mas é visível o enorme afluxo de moeda sobre os países emergentes, especialmente sobre o Brasil, cuja principal consequência é a inexorável tendência à valorização cambial, e, portanto, perda de preço em dólares do produto brasileiro em relação a todos os concorrentes e não apenas em relação à China.
De todo o modo, assim como é difícil para o Brasil conter o afluxo de dólares, é difícil para os Estados Unidos obterem tudo o que pretendem se nem sequer assumem seu pedaço de responsabilidade pelo estrago que está aí.





