O governo Dilma não pode mais vacilar. Terá de perder definitivamente o medo de mergulhar nas águas do desenvolvimento e isso exige a quebra dos padrões que
mantiveram as esquerdas atreladas a valores do passado











Durante muito tempo, os economistas do PT imaginaram que a simples criação de um mercado interno de massa resolveria quase todos os problemas do crescimento econômico e do emprego.

Pois agora temos uma razoável economia de massa e, no entanto, as soluções não vieram tão mecânica e espontaneamente. O investimento é um desses problemas.

Uma das apostas era a de que o baixo nível do investimento no país, equivalente a cerca de 18% do PIB, seria rapidamente corrigido quando o consumo entrasse em velocidade cruzeiro. ''É aumentar o consumo que o investimento vai atrás'', diziam. Quem acreditava em que as coisas funcionam assim deve estar abalado em suas convicções.

O investimento é baixo no Brasil por um grande número de razões. Porque a poupança é insuficiente; os juros são altos demais; a infraestrutura ainda não tomou jeito; a carga tributária ficou insuportável; o câmbio não ajuda; persiste grande instabilidade por falta de firmeza nas regras do jogo; as agências reguladoras foram desvirtuadas; o PT no poder vê com desconfiança as iniciativas destinadas a aumentar o índice de privatização da economia; as reformas estruturais estão emperradas; e, também, porque não foi superada a vacilação permanente a respeito da função do capital estrangeiro no Brasil.

No momento, o governo Dilma lida com duas contradições básicas ligadas ao investimento. A primeira delas está relacionada ao tratamento a dar ao capital estrangeiro. O Brasil precisa atrair recursos destinados a complementar o capital nacional nos investimentos de centenas de bilhões de dólares no pré-sal, nas obras do PAC, nos projetos destinados à Copa do Mundo e à Olimpíada; na ampliação e na construção de portos, aeroportos e estradas e por aí vai. No entanto, teme-se que a entrada maciça de capitais concorrerá para a excessiva valorização do real, cujo principal efeito é tirar competitividade do setor produtivo brasileiro.

Ao coibir a entrada de capitais especulativos, por exemplo, o governo também tira previsibilidade dos capitais de longo prazo, na medida em que deixará o investidor estrangeiro exposto ao risco de rápida desvalorização do real cuja principal consequência é tirar competitividade ao setor produtivo.

Há algumas semanas, por exemplo, o governo federal criou incentivos tributários às aplicações estrangeiras de longo prazo. Mas, a todo o momento, também sugere que qualquer entrada de capitais tem o lado ruim de trabalhar no sentido de valorizar a moeda brasileira.

Incompreensível é o ranço antiprivatizante. Qualquer convocação do setor privado para participação de atividades hoje atribuídas ao Estado é vista como reles privataria. E, no entanto, é impossível continuar a ordenha do Tesouro na proporção a que foi submetido nos últimos quatro anos. O governo acaba de desistir de criar uma estatal de seguros. Agora, para escândalo dos mais conservadores do PT, além de estudar a privatização de aeroportos, anuncia estudos destinados a abrir o capital da Infraero. Para isso, é claro, terá de manter azeitado o mercado de ações e mantê-lo atraente ao capital estrangeiro, mas isso pode trazer dólares demais...

O governo Dilma não pode mais vacilar. Terá de perder definitivamente o medo de mergulhar nas águas do desenvolvimento e isso exige a quebra dos padrões que mantiveram as esquerdas atreladas a valores do passado.

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