CELSO MING
Adiar a aposentadoria
Paris está paralisada pelas manifestações contra o projeto do presidente Nicolas Sarkozy que prevê o adiamento por apenas dois anos do início da aposentadoria como medida necessária para reequilibrar as contas da previdência social da França.
A expectativa de vida está aumentando em todo o mundo. As finanças do sistema previdenciário estão quebradas porque os governos (e não só o da França) têm de garantir o pagamento da aposentadoria por mais tempo.
Trata-se de fator relativamente novo que não foi levado em conta quando do estabelecimento das bases atuariais com que se criaram os sistemas de aposentadoria e pensão após a 2ªGrande Guerra.
Mas, desta vez, não são apenas os trabalhadores que estão se manifestando contra esse projeto que obriga as pessoas comuns a trabalhar por um período mais longo do que trabalharam seus pais.
Fato inesperado são os estudantes, universitários e secundaristas, que vêm agora engrossando os protestos, por outra razão. Porque, argumentam, se for aprovado, o adiamento da aposentadoria manterá por mais tempo fechados os postos de trabalho hoje já escassos. Enfim, dizem os jovens, os coroas têm de desocupar a moita para dar lugar a quem vem vindo aí e esse projeto do presidente Sarkozy não olha para isso. É a questão previdenciária agravando o desemprego.
O problema está longe de se limitar à obtenção de cobertura para o rombo do sistema previdenciário. Todo o regime do Estado do bem-estar social (welfare state) adotado na Europa está sendo duramente questionado. Bem antes da atual crise, as despesas públicas vinham aumentando muito acima da capacidade de arrecadação dos governos e ajustes drásticos já eram recomendados.
Na área do euro, a recessão e a falta de moeda própria para desvalorizar tornaram as coisas ainda mais difíceis. Os deficits orçamentários estão se agravando e as dívidas públicas se multiplicando, como mostram os casos da Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal.
Um dos três economistas laureados este ano com o Prêmio Nobel por seus estudos sobre o emprego, o cipriota-britânico Christopher Pissarides, tem advertido que o seguro-desemprego, tal como praticado nos países ricos, deixou os trabalhadores acomodados demais e excessivamente dependentes dos benefícios proporcionados pelo Estado. E esse já é fator de perda de competitividade, que a crise só está agravando.
Mas essa é uma questão mais complexa. Se o objetivo for limitar-se a resolver tão somente a questão previdenciária, e se não for possível adiar a aposentadoria, tal como sugere o presidente da França, porque sabota o emprego dos jovens, então a solução que sobra talvez seja o aumento da contribuição. No entanto, essa medida por si só implicaria redução da renda real que pode ficar abalada pela estagnação econômica e pelo desemprego.
Este é um momento delicado em que os problemas da casa se multiplicam: o conserto da rede hidráulica agrava o da instalação elétrica que mexe com o piso, com as paredes, com o teto. Passa a impressão de que ficaria mais barato demolir tudo e construir uma casa nova, com novo projeto. Mas qual seria? Esta é a maior crise do capitalismo desde os anos 30 e, no entanto, nenhum partido, nenhum movimento político, nem à esquerda nem à direita, aparece com proposta para a saída da encalacrada.





